Empréstimos mais longos devem dar novo gás ao crédito



Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor
Hoyos, do Santander: famílias usaram crédito para necessidades imediatas
O motorista de táxi Roberto Trombeta sabe de cor o dia em que vence sua última dívida: 24 de julho de 2014. "O carro, o cartão, o cheque especial e a dívida que eu tenho fora do banco, todas terão terminado nesse dia." A data encerra um ciclo de endividamento que dura mais de três anos na vida do taxista. "Virou bola de neve. No começo eu pagava as dívidas mais altas e deixava de lado as menores. Elas foram crescendo e depois eu não conseguia pagar essas também", diz. "Aprendi a pagar primeiro as que têm juros mais altos. Estou indo pagar o cartão agora. Depois, a cooperativa de táxi. O que sobrar, vai para o carro."
O acúmulo de dívidas de Roberto Trombeta mostra a barreira a ser vencida para que o crédito no país volte a ganhar ritmo. A combinação entre operações de juros altos e prazos curtos resultou em um salto no patamar de gasto mensal das famílias com dívidas financeiras, um dos fatores que travam a expansão do crédito neste ano. Mudanças nessa dinâmica serão determinantes para reverter a desaceleração.
Em maio, dado mais recente do Banco Central, as famílias brasileiras gastaram, em média, 21,85% de sua renda mensal líquida com pagamento de prestações de dívida (incluindo juros e principal), ainda próximo da máxima de outubro de 2011, quando chegou a 22,36%. Em janeiro de 2005, quando começa a série histórica, a taxa era de 15,5%. Nos Estados Unidos, uma medida semelhante feita pelo Federal Reserve, o banco central americano, registrou 10,98% no primeiro trimestre.
Os cortes sucessivos na taxa básica de juros e a pressão do governo por menores spreads bancários começam a surtir efeitos nas taxas de juro cobradas dos clientes, o que pode trazer um alívio em breve para o endividamento das famílias. Falta, porém, equacionar o aumento dos prazos. Em economias maduras foi a disseminação do financiamento da casa própria que possibilitou alongamentos. Só que, assim como os demais tipos de concessões, o crédito imobiliário caminha mais devagar neste ano no Brasil.
"Para os próximos anos, enxergamos uma tendência de crescimento maior no crédito imobiliário que em modalidades de crédito de consumo, que crescerão menos", avalia o vice-presidente de estratégia do Santander Brasil, Juan Hoyos. "Se isso acontecer, o prazo médio das operações no Brasil vai crescer." Calculado pelo BC, o prazo médio do crédito referencial para taxa de juros fechou junho em pouco mais de um ano e meio.
O executivo interpreta que a queda no desemprego, hoje em níveis historicamente baixos, combinada à expansão da oferta de crédito, abriu espaço para que as famílias brasileiras satisfizessem necessidades de consumo mais imediatas. Por outro lado, a mentalidade herdada de tempos de hiperinflação segurou o endividamento de prazo mais longo, direcionando a expansão para o crédito ao consumo, avalia.
De dez anos para cá, a relação entre crédito e PIB da economia brasileira mais que dobrou, uma das faces visíveis do movimento de bancarização e de aumento da oferta de financiamentos no país. Hoje, o estoque total de crédito do sistema financeiro representa 50,6% do PIB. O crescimento teve ênfase nas operações da pessoa física, em que predomina o crédito pessoal - operação com prazo médio de pouco mais de um ano e meio.
"Gradualmente, o crédito no Brasil caminha para prazos mais longos", diz Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse. Enquanto o movimento dos prazos é mais lento, Teixeira prevê para meados do ano que vem um efeito positivo da queda dos juros no endividamento das famílias.
Nesse caso, o prazo curto dos financiamentos brasileiros pode agir a favor dos tomadores, já que o giro de contratações é rápido, acelerando a "troca" de empréstimos com juros mais altos por outros de taxas menores. "Em meados do próximo ano, o gasto das famílias com dívida deve voltar a um patamar próximo de 20%, padrão do fim de 2010", afirma.
A relação entre o valor total das dívidas das famílias com o sistema financeiro e a renda acumulada em 12 meses mostra o potencial de crescimento do crédito, caso os prazos aumentem. Em maio, este indicador estava em 43,4% no Brasil, enquanto medida semelhante dos Estados Unidos superou 100% em 2011. Nos EUA, o prazo médio do crédito é de pouco mais de vinte anos, o que diminui o valor de pagamentos no curto prazo. Logo, as famílias podem assumir mais dívida, mas com menor gasto mensal com parcelas.
Essencial para o aumento dos prazos médios das operações, o crédito imobiliário vem perdendo um pouco do fôlego dos últimos anos. Entre janeiro e junho, o volume de recursos imobiliários emprestados ficou em R$ 37,04 bilhões, praticamente o mesmo daquele registrado em igual período de 2011 (avanço de 0,1%), segundo dados da Abecip, associação de crédito imobiliário. As operações de pessoa jurídica foram as grandes responsáveis pelo crescimento marginal.
"Este é um ano de ajustes para o crédito imobiliário. No ano que vem, a modalidade deve voltar a crescer a taxas mais altas, mas não tanto quanto no passado", avalia Claudio Borges, diretor de crédito imobiliário do Bradesco. Ele acredita que a proporção entre o saldo de crédito imobiliário e o Produto Interno Bruto dobre nos próximos cinco anos, "se tudo correr bem". Hoje, essa relação está em 6%.
Também são pouco populares no Brasil produtos que ajudaram a alongar prazos de crédito em outros países. É o caso do refinanciamento imobiliário, em que um imóvel é dado como garantia para financiamentos de 10 a 12 anos. A modalidade hoje responde por parte pequena das operações brasileiras. "O 'refis' deve ser entre 1% e 3% das novas operações originadas de crédito imobiliário. Mas acho que vai crescer com velocidade nos próximos anos", diz Antonio Barbosa, superintendente de crédito imobiliário no HSBC.
Ele enxerga a atratividade do produto na possibilidade de trocar dívidas de curto prazo, com taxas altas, por outras com taxa que pode ser de 1,5% ao mês, em dez anos. "Em um exemplo exagerado, o comprometimento com pagamento de dívidas de uma família pode ir de 30% para 3% com a mudança", diz.
"Há um estigma da população, em especial de quem acabou de sair do aluguel, em dar a casa como garantia para um empréstimo", avalia Victor Loyola, vice-presidente de risco do Citi. Além da hipoteca "tradicional", Loyola cita o crédito estudantil como modalidade que ajuda a aumentar os prazos de dívidas em outros países, mas que quase não é feita aqui.
Sobre o endividamento, o BC calcula que, excluindo o crédito habitacional, o índice se encontre ao redor de 30% da renda anual e venha crescendo de forma "moderada". A avaliação foi feita pelo diretor de política econômica da autoridade, Carlos Hamilton Araújo, em evento do BC na semana passada. Sobre o comprometimento de renda mensal com prestações, Hamilton disse ver continuidade da tendência de recuo desse indicador.
O próprio crédito imobiliário vem apresentando prazos maiores. A duração média do saldo atual da modalidade fica entre 12 e 13 anos, sendo que as operações mais longas no Brasil vão até 35 anos. Porém, o crédito concedido em 2011 tem prazo médio entre 16 e 17 anos, informa Octávio de Lazari Junior, presidente da Abecip. Ele acredita que esse processo tem relação com aumento do tíquete médio financiado, na medida em que sobem os preços de imóveis.

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