Dividendos e small caps no topo


Embora a bolsa tenha reagido em julho, fechando o mês com alta superior a 3%, os ganhos mais vistosos na renda variável passaram longe dos fundos que miram apenas o Índice Bovespa. Quem mais deu alegrias aos investidores foram as carteiras de ações de empresas de menor porte, que, historicamente, não tendem a ir tão bem quando o Ibovespa ganha força.

Os fundos de small caps lideraram com folga em julho, exibindo rentabilidade média de 3,80%. No acumulado do ano, em que o Ibovespa amarga queda de 1,16%, o destaque são os fundos de dividendos, com ganhos de 13,65%, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Agora, é identificar o que é passado e o que ainda é oportunidade.
Com o vaivém alucinante do Ibovespa nos últimos meses, os investidores passaram a buscar opções de ganho na bolsa menos correlacionadas ao índice, como os fundos de dividendos. Eles lideraram a captação no segmento de renda variável em julho, com aporte líquido de R$ 252 milhões, enquanto os portfólios indexados ao Ibovespa tiveram saída de R$ 104 milhões.
Boa parte do retorno dos fundos de dividendos é explicada pelo bom desempenho de algumas ações que têm se beneficiado do aumento do consumo e do crédito no Brasil, como a credenciadora de cartões Cielo, que acumula alta de 57% no ano. "Apesar de ter subido muito, acreditamos que é um papel que ainda vale a pena ter na carteira, pois a demanda no setor de cartões de crédito cresce cerca de 15% ao ano", diz Joaquim Levy, diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (Bram).
Os papéis do setor de consumo, como Natura e Ambev, têm ganhado maior peso na carteira do fundo Bradesco Dividend Yield. Apesar de ter como objetivo investir em ações menos vulneráveis aos ciclos econômicos, focando empresas com fluxo de caixa mais estável, o potencial de crescimento de lucro também é importante. "Buscamos aplicar em ações com potencial de valorização de pelo menos 15% a 20%", destaca Levy, da Bram.
Com a queda da taxa básica de juros convergindo para patamares internacionais, para Levy, os fundos de dividendos tendem a ganhar maior atratividade. "Com a taxa Selic alta, os investidores aplicavam na bolsa com a expectativa de terem altos retornos, mas com a tendência de redução da taxa de juros, eles começam a olhar para os fundos de ações com perspectiva de geração de renda", diz.
O fundo de dividendos do BTG Pactual também tem privilegiado a alocação em ações de empresas voltadas para a economia doméstica como Ambev, Natura e Cielo. Apesar de terem subido muito, as ações da credenciadora de cartões foram mantidas no portfólio. "É um setor que ainda tem uma baixa penetração no Brasil", afirma José Zitelmann, sócio responsável pela área de renda variável do BTG Pactual.
O setor de e logística e infraestrutura ainda continua com posição importante nos fundos de dividendos do Bradesco e BTG, com destaque para os papéis da CCR, Ecorodovias e Ultrapar.
Diante dos juros em queda e da bolsa morna, por um lado, e de empresas que prometiam dividendos polpudos de outro, os investidores apostaram certo até agora, diz Marcelo Castro, sócio da DLM Invista. Mas, considera, pode ser hora de reavaliar a estratégia. "Passada a lua de mel do Brasil como o país onde está tudo muito melhor do que lá fora, essas empresas não vão apresentar rentabilidade futura tão interessante e vão pagar dividendos, mas por falta de bons projetos para aportar", diz Castro, preocupado com a sustentabilidade desse movimento. Para ele, especialmente no setor de energia, as ações já estão caras, mesmo pesando os altos dividendos pagos.
Também para Walter Maciel, sócio executivo da Quest Investimentos, é preciso avaliar o preço desses papéis. "A ação da Ambev, por exemplo, negocia hoje a uma relação de preço/lucro (indicador que mede o tempo de retorno para o investidor reaver seus investimentos) de 26 vezes, superior ao que a Budweiser é negociada", afirma.
Se é que não se encontram nos fundos de dividendos, onde estão as oportunidades no universo dos fundos de ações? Talvez os campeões de rentabilidade em julho - fundos que investem em papéis de menor liquidez - ofereçam a pista. Eles marcaram 3,8% no mês, batendo inclusive os 2,01% do Índice Small Cap no período, depois de três meses no vermelho. No ano, ainda estão muito atrás dos fundos de dividendos, com 6,91%.
Maciel acredita que os fundos small caps podem ser uma boa opção para os investidores. "O momento dos fundos de dividendos já passou e o investidor terá que tomar mais risco para ter uma rentabilidade maior." Entre os papéis da carteira de small caps da gestora, ele destaca oportunidades em BR Malls, Even, Cosan, Anhanguera e Comgás.
Eles não são a maioria, mas ainda há papéis baratos e de qualidade na bolsa, considera também Castro, da DLM. E a maior parte, para ele, está entre small e, principalmente, mid caps, ou seja, empresas de média capitalização. Para se valorizar, elas dependem menos do fluxo de capitais para a bolsa do que de seus resultados, considera. "Elas vão se distinguir de empresas que não têm qualidade de lucros através dos balanços", diz. Entre as oportunidades ele cita a Valid, pela sua atuação no segmento de certificação digital.
Já para os fundos que buscam superar o principal índice da bolsa brasileira, Castro é taxativo. "Pelo fluxo morno e pelos fundamentos de forma geral ruins, não apostaria no Ibovespa".
Para Maciel, da Quest, o desempenho do Ibovespa, que tem um grande peso do setor de commodities, depende de uma recuperação do crescimento da China, que tem sustentado o preço desses ativos nos últimos anos. "Os papéis das empresas de commodities devem continuar baratos, com o crescimento da economia chinesa devendo alcançar de 7,5% a 8% neste ano".
Sem um horizonte de ganhos consistentes para o Ibovespa nos próximos meses, já que as blue chips enfrentam problemas, talvez seja melhor continuar procurando oportunidades fora do índice.

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