A disputa pela prefeitura na cidade de Eike Batista



Quatro candidatos concorrem ao executivo da cidade de São João da Barra, onde começará a funcionar, em 2013, parte do Porto do Açu

Cecília Ritto, de 

Porto de Açu
Porto de Açu, de Eike Batista: dois dos candidatos não têm experiência política, um é considerado ficha-suja e o favorito está prestes a concluir os anos escolares
São João da Barra é um dos municípios brasileiros que mais passará por transformações nos próximos quatro anos. Enquanto são realizadas grandes obras nas cidades-sedes da Copa do Mundo de 2014 e, no Rio de Janeiro, desenham-se melhorias para a Olimpíada de 2016, a antes pacata São João, no Norte Fluminense, deve dobrar seu total de habitantes e sua arrecadação. O ‘milagre do crescimento’ já está em curso, mas vai se acentuar a partir de 2013 com o início da operação do Porto do Açu, o megaempreendimento de Eike Batista, responsável por colocar o município no mapa mundial.
As grandes oportunidades para o setor privado representam também uma chance e tanto também para a política – ou os políticos propriamente ditos. O início da movimentação no Porto do Açu, a maior obra de infraestrutura portuária da América Latina, com investimento de 3,8 bilhões de reais, coincide com o começo do quadriênio ‘de ouro’ para a prefeitura da cidade.
São João da Barra se tornará independente dos recursos dos royalties do petróleo e sairá de uma arrecadação de 350 milhões de reais para 700 milhões em 2015. Em contrapartida, o novo gestor terá de administrar uma expansão violenta, com necessidade de criação de infraestrutura e serviços. Caberá a um deles tocar o plano diretor da cidade - o vencedor terá a opção de executar um plano diretor assinado pelo urbanista Jaime Lerner para o município - e amenizar a chegada dos problemas de cidade grande.
Os candidatos que se apresentam para gerir essa nova potência econômica da região são nomes pouco conhecidos no estado. E alguns são desconhecidos até na própria cidade: Betinho Dauaire, Neco, Jéssica Ribeiro e Murilo da Karol disputam o que, nos arredores de São João da Barra, é a “prefeitura da cidade do Eike”.
Assista ao vídeo institucional do Porto do Açu:

É certo que competência não se mede por idade ou tempo de estrada na política. Afinal, se figuras experientes no Executivo e no Legislativo fossem sinônimo de eficiência, o Brasil estaria no topo do mundo em matéria de serviço público. Mas a escolha para os eleitores de São João não é das mais fáceis.

A mais jovem candidata a gerir os 500 milhões de reais do orçamento de 2013 do município de 33 mil habitantes é Jéssica, do PPL, com 27 anos. Professora de história, formada em uma faculdade chamada Universo, em Campos dos Goytacazes, cidade vizinha – onde a prefeita é a ex-governadora Rosinha Garotinho. O currículo político da jovem ainda é uma folha em branco. Ela conta com a memória do povo sanjoanense para escrever a primeira linha de seu histórico na vida pública. Para isso, vai evocar a lembrança de seu avô e seu bisavô, que governaram a cidade nos anos 40, 50 e 70. “Venho de movimento estudantil. Minha família toda é de São João da Barra”, afirma Jéssica que, junto com Betinho e Murilo, compõe o trio da oposição. Eles são as vozes críticas ao projeto de Eike. Em comum, os três afirmam que o volume dos investimentos ainda não se refletiu na vida do morador da cidade.

Murilo, 52, já tentou disputar uma eleição, em 2008, para vereador. Mas, antes mesmo de a campanha começar, teve o seu nome substituído por outro candidato. Ele era petista, tinha Luiz Inácio Lula da Silva como ideal de político. Depois, virou tucano, e hoje prefere o senador Aécio Neves e o deputado estadual Luiz Paulo Correa da Rocha como exemplos para se espelhar. Murilo parece destoar da cidade onde pretende ser prefeito: “A primeira ideia é reformular tudo. Tentar fazer o dono do empreendimento, seja lá quem for, mesmo se for Eike, abrir a caixa preta e explicar de verdade o que vai acontecer na cidade”, afirma, frisando ser contrário ao “capitalismo selvagem”.

Com negócios menos ‘agressivos’ que o do homem mais rico do Brasil, Murilo tem como experiência de gestão o fato de administrar, há oito anos, um negócio inédito em São João: uma loja de doces, que chamou de Karol, em homenagem à filha. Daí o motivo de Ricardo Murilo de Sá Barreto ter se tornado o Murilo da Karol – nome que explora na campanha. “As pessoas me conhecem por esse nome. Sou chamado até de Karol, o único homem com nome feminino em São João da Barra”, brinca o comerciante. Como conta, chegou perto da faculdade, quando iniciou o curso de administração. Mas não foi longe. E hoje consta apenas o Ensino Médio concluído em seu currículo escolar.

Murilo tem bens, mas nenhum deles consta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como manda a lei. “A loja é minha, sim. Também tenho um carro Fiesta. Como ainda não tinha começado a pagar, achei que não era meu. Mas acredito que não haverá problema na Justiça. Foi uma falha e eu assumo”, afirma.

Mais escolado que Murilo, Betinho Dauaire, do PR conhece o gosto do poder. E quer voltar à cena política de São João da Barra. No meio do caminho, no entanto, topou com problemas antigos e hoje é o único cujo pedido de candidatura foi indeferido. Ele recorreu à decisão e continua na corrida pela prefeitura, enquanto o recurso não é julgado. Betinho governou a cidade por oito anos e colecionou ações por improbidade administrativa, que tramitam na comarca da cidade.

O Ministério Público Eleitoral e a coligação “São João da Barra não pode parar”, que apoia Neco, ajuizaram uma ação de impugnação do registro de candidatura de Betinho. Segundo o MPE, ele é classificado como ficha-suja por ter tido suas contas, enquanto prefeito, desaprovadas pelos tribunais de contas da União e do estado. O juiz que indeferiu o pedido de Betinho, Leandro Loyola de Abreu, alegou que a conduta do ex-prefeito configura “atos dolosos de improbidade administrativa de natureza insanável” e afirmou que ele causou “evidente dano irreparável aos cofres públicos”.

O PR de Betinho é o partido forte na região, sob o comando do ex-governador Anthony Garotinho. Com o seu “vê se entende” para pontuar frases, Betinho explica o porquê de seu nome ter ido parar na Justiça. “Todo prefeito tem dois tipos de contas a cada ano do exercício: contas de exercício financeiro e ordenador de despesa. O ordenador são despesas feitas por terceiros (vê se entende)”, diz Betinho, tentando devolver a bola a seus ex-funcionários. “São despesas sem dolo, sanáveis”, afirma, apoiando-se na alegação de que as rejeições de contas ainda não transitaram em julgado.

Na expectativa de se livrar da impugnação, Betinho, um dos críticos mais ferozes da atual prefeita Carla Machado, do PMDB, faz planos para uma eventual nova gestão. Entre eles, o de fazer funcionar o Hospital Maria Julia Aquino, criado em seu mandato. Atualmente, a unidade não passa de uma policlínica e sede da Secretaria de Saúde. Por enquanto, São João não tem hospital.

São João da Barra reflete a principal disputa política do estado do Rio, entre os grupos rivais de Sérgio Cabral e de Anthony Garotinho. “O prefeito não pode posar de tiete do Eike Batista e pegar a bandeira do porto como se fosse uma bandeira política. Não pode fazer isso (vê se entende). Hoje o executivo parece assessoria de comunicação do complexo portuário. É medalha pro Eike, é não sei o que pro Eike”, reclama Betinho.

Neco, do PMDB, é o principal adversário de Betinho. O peemedebista se apresenta como o candidato da continuidade, com a experiência de quatro mandatos como vereador. Em 2008, foi o mais votado, com 1.246 votos. Ele é um dos poucos moradores de São João da Barra que, de fato, nasceu lá. Como não há hospital, um legítimo sanjoanense deve ser parido dentro de casa. “A cozinha do hospital construído (por Betinho) é colada ao necrotério”, diz, contestando a obra do adversário.

Neco aparece no TSE como agricultor, mas, além de trabalhar como cortador de cana, já vendeu picolé e trabalhou em fábrica de costura. Dos candidatos à prefeitura, o vereador é o que apresenta a menor instrução. Ele frequentou a escola até a 5ª série (o sexto ano atual). Há aproximadamente quatro anos, retomou os estudos. Fez um supletivo e está a três provas de conquistar o seu diploma do Ensino Médio. “Na infância não tive tempo de estudar. Cheguei à quinta série e parei. Com o tempo, comecei a estudar, mas à distância. Agora falta pouco para terminar”, afirma Neco, ainda tropeçando um pouco nos “r” e “s”. No Brasil, os problemas com a língua estão longe de significarem menos votos. E Neco é o mais cotado para vencer as eleições.

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