O poder da China no novo mundo



Não há como questionar as tendências. A China está com tudo.
O paradoxo é que embora o Ocidente tenha impulsionado a globalização na era moderna, os países ocidentais cada vez mais se enredam em torno a políticas isolacionistas. Os principais motivos são a ansiedade, medo e mal-entendidos sobre a China. Os tempos incertos também se refletem na volatilidade dos mercados. Estamos claramente em um novo mundo, cada vez mais orientado em direção à China. É vital entender de que ponto a China saiu para que seja possível ajustar-se ao desafio da globalização do século XXI.
Entre aproximadamente os séculos II a.C. e XV d.C., durante cerca de 1.700 anos, a "globalização" - a integração dos mercados por meio de fluxos entre fronteiras de bens, capital (seja qual for a forma), pessoas e conhecimento - foi dominada pela Rota da Seda, que se estendia por terra do Leste da China até o Mediterrâneo Ocidental e foi posteriormente complementada pela Rota das Especiarias, de Java, pelo Oceano Índico, até Veneza e, pela costa Africana, até a Somália. Entre os agentes da globalização estavam os chineses, indianos, mongóis, centro-asiáticos, persas, árabes, egípcios e, na ponta final receptora, os europeus.
Há 20 anos, os países da OCDE eram o centro da economia mundial com outras regiões girando a seu redor. Hoje, a maior parte do comércio exterior e dos fluxos de investimentos internacionais se dá dentro ou entre as regiões outrora periféricas do mundo.
Com o passar do tempo e as invenções científicas, houve consideráveis melhoras na cartografia, construção naval e navegação. No início do século XV, a China parecia ostensivamente estar no comando e, a priori, encaminhada a tornar-se senhora do universo. O grande almirante Zheng He fez viagens no período de 1405 a 1433 navegando pelo Mar do Sul da China, Mar de Java, Oceano Índico até a Baía de Bengala, Mar Árabe, Golfo Pérsico, Mar Vermelho e pela costa da África até Mombasa. Alguns acreditam que ele teria chegado até a América. No que continua sendo uma notável mudança de rumo, logo quando a China tinha os recursos para expandir-se pelos mares, os imperadores Ming decidiram suspender as expedições e proibir a navegação pelos mares, com o que os navios da frota da Zheng He foram destruídos e toda a construção de embarcações para grandes viagens marítimas foi proibida.
À medida que a China se fechava em si mesma, a Europa avançava. O Império Ultramarino Português emergiu e estendeu-se pelo Atlântico (com a descoberta da América e a colonização do Brasil em 1500) e pelos oceanos Índico e Pacífico, incluindo postos avançados em Malaca, Goa e Macau. Iniciou, portanto, a ascensão inexorável do domínio global pelo Ocidente. As potências europeias podem ter ascendido e decaído isoladamente - como foi caso dos impérios português e espanhol -, mas, então, outros assumiram o domínio global, mantendo-o firmemente nas mãos do Ocidente, como a Holanda, Grã-Bretanha e França; quando a Europa passou o bastão, por assim dizer, os Estados Unidos o pegaram.
A história realmente importante entre o início dos séculos XVI e XXI foi a transferência de riqueza e poder da Ásia para o Ocidente. Entre 1500 e 1600 a Ásia era responsável por mais de 65% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial; em 1700, à medida que o impacto da ascensão das grandes empresas holandesas e britânicas no Leste Asiático começou a ser sentido, a participação começou a declinar, embora ainda mantendo-se em 60%. No início do século XIX a Ásia ainda parecia estar mais ou menos se mantendo por conta própria. De fato, só a China era responsável por 33% do PIB mundial. Então, os diques da industrialização e imperialismo ocidental estouraram. Em 1950, a Ásia tinha 60% da população mundial e 17% do PIB. A Ásia estava pobre, muito pobre. Em 1975, 25 anos depois, havia aumentado a participação no PIB mundial para 22%.
Estamos testemunhando hoje uma mudança tão profunda quanto a ocorrida há meio milênio, com a ascensão do Império Ultramarino Português. Em razão da tecnologia, no entanto, esta era de transformações na qual vivemos vem fluindo ao longo de um período de tempo muito comprimido; a situação vem mudando a uma velocidade alucinante - tão alta, que muitos, especialmente no Ocidente, as pessoas não percebem.
O que é esse "novo mundo"? Para começar, é um mundo que não é mais dominado pelo Ocidente. Há 20 anos, a participação do mundo em desenvolvimento no PIB era de 35%; hoje é de 50% e segue em alta. Há 20 anos, os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) eram o centro da economia mundial com outras regiões girando a seu redor passivamente. Hoje, a maior parte do comércio exterior e dos fluxos de investimentos internacionais se dá dentro ou entre as outrora regiões periféricas do mundo. O comércio entre China e Brasil multiplicou-se mais de 20 vezes entre 2000 e de 2010. A China, que estava à margem das relações econômicas da maioria dos países do mundo em desenvolvimento, hoje ultrapassou os Estados Unidos e União Europeia (UE) e se tornou o maior parceiro comercial do Brasil. Uma tendência similar pode ser vista nos laços econômicos da China com outros países da Ásia, África e América Latina. Os laços e a influência chinesa não estão limitados aos países em desenvolvimento. Pequim possui cerca de US$ 1,8 trilhão investidos em bônus do Tesouro dos EUA; a China é, como Hillary Clinton admitiu recentemente, o banqueiro dos EUA.
O novo mundo está cada vez mais sinocêntrico. A China tornou-se o centro de produção industrial mundial, o centro da cadeia de fornecimento mundial. Superou os EUA e Alemanha como maior potência comercial do mundo. Superou o Japão e tornou-se a segunda maior economia do mundo e quase certamente passará os EUA, em termos de PIB agregado, antes do fim da década. Naturalmente, em PIB per capita, a China ainda continua relativamente pobre; de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em termos nominais, a China ocupava a 88ª posição (entre 183 países). Ainda assim, a China viu 600 milhões de pessoas saírem da linha da pobreza nos últimos 20 anos; uma crescente urbanização e a ascensão meteórica da classe de "renda média", atualmente estimada em 350 milhões de pessoas, com projeções de que poderá chegar a 1 bilhão em 20 anos.
Desde o abandono das expedições marítimas de Zheng He até recentemente, a China estava voltada para dentro. Fracassou (ao contrário do Japão) em adaptar-se aos desafios da industrialização e imperialismo que emanavam do Ocidente no século XIX. Embora Mao tenha conquistado a independência política da China, seu regime seguiu um regime de autarquia econômica.
Em 1978, a liderança chinesa, sob o comando de Deng Xiaoping, decidiu, nas palavras do economista Zheng Bijian, acolher a globalização. O resto, como se costuma dizer, é a história dos últimos 30 anos e é algo que marcará as próximas décadas. A revolução mundial sinocêntrica realmente está apenas em seu início. (Tradução de Sabino Ahumada).
(*) Angus Maddison, The World Economy: a Millennial Perspective
Jean-Pierre Lehmann é professor emérito de Política Econômica Internacional no IMD, diretor-fundador do Evian Group no IMD e pesquisador sênior do Fung Global Institute em Hong Kong.

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