Jogo de "resta um" na bolsa de valores


Regis Filho/Valor / Regis Filho/ValorSiqueira, da Citi, não vê ciclo de alta de commodities nos próximos cinco anos
Crise persistente na zona do euro, vendas no varejo em queda nos Estados Unidos, desaceleração contínua do Produto Interno Bruto (PIB) da China e, no cenário doméstico, a falta de fôlego da economia brasileira. Poucas notícias econômicas têm agradado os investidores no mercado acionário. E a pergunta que não sai da cabeça deles é: que papéis eu compro?
O setor de consumo, que em meio à crise mundial foi verdadeiro refúgio para os investidores, uma vez que estava menos exposto às turbulências globais, já não está tão atrativo. Um dos motivos é a desaceleração da atividade doméstica. O PIB brasileiro no primeiro trimestre subiu apenas 0,2% em relação aos três meses anteriores. Além disso, na semana passada, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) divulgada pelo IBGE mostrou um recuo de 0,80% das vendas em maio ante abril, na série com ajuste sazonal. Dizem analistas que, apesar da escorregada recente, ainda restam oportunidades no segmento de varejo, mas o investidor precisa ser muito seletivo para conseguir separar o joio do trigo.
E até mesmo o setor elétrico, tradicional porto seguro, já causa dúvidas. Para alguns especialistas, parte dos papéis estaria sob a sombra da revisão tarifária definida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Este ano, até o último 12 de julho, o conjunto das empresas do setor elétrico que integram o Ibovespa, segundo levantamento do Valor Data, caiu 2,22%. Mesmo assim, em 12 meses (encerrados no último dia 12), o setor ainda sobe 6,96%. "O setor elétrico, teoricamente defensivo, perdeu um pouco de brilho", afirma Maurício Pedrosa, sócio da gestora de recursos Queluz.
Para Christian Faricelli, gestor de renda variável na Capitânia, as elétricas têm causado insegurança também porque o país está crescendo menos, de forma que a demanda por energia tem diminuído. Ele se diz preocupado com as cotações atuais, porque os papéis já se valorizaram "razoavelmente", tendo em vista o retorno das empresas. "As ações das elétricas hoje apresentam múltiplos com prêmio em relação a empresas do mesmo setor de outros países", afirma.
O fato é que comprar uma ação neste momento virou verdadeiro trabalho de garimpeiro. A opinião de Faricelli é que hoje é preciso ter mais cautela com as ações ligadas ao consumo interno, porque o brasileiro está mais endividado. "Esses papéis estão entrando em um período de interrogação. Eles subiram muito na crise, mas hoje o cenário doméstico não é tão favorável", afirma.
O estrategista da Santander Corretora, Leonardo Milane, pondera que, apesar da desaceleração da atividade econômica no país, os setores que devem ter um bom desempenho são os voltados à dinâmica doméstica, já que a turbulência lá fora não dá sossego. Ele mantém, por exemplo, a aposta nas elétricas, argumentando que o setor permanece interessante e ainda serve de porto seguro. Essa preferência pelo mercado interno não significa, contudo, que o investidor não deve ser seletivo. "Recomendo fugir do segmento têxtil. O consumidor passa por um período delicado, pois está muito alavancado".
Um exemplo de segmento ainda atrativo para Milane, por exemplo, é o de concessões rodoviárias. "Empresas como CCR e OHL Brasil, que não são afetadas pelo endividamento do consumidor brasileiro e distribuem bons dividendos, podem ser boas opções", afirma. O estrategista também aposta no segmento de alimentos e bebidas. "Empresas como Ambev e Souza Cruz independem da dinâmica global e contam com grande fatia do mercado", justifica.
Neste momento, segundo os analistas ouvidos pelo Valor, é muito arriscado comprar ações ligadas a commodities, caso da Petrobras e da Vale, as principais "blue chips" do Ibovespa. "A valorização dos preços das commodities, nos últimos dez anos, foi muito puxada pelo crescimento da China. Nosso cenário base, porém, não prevê um ciclo longo de alta nas matérias-primas nos próximos cinco anos. Esperamos estabilidade", explica Fernando Siqueira, economista-chefe da Citi Corretora.
Segundo Milane, da Santander Corretora, quem compra papéis de commodities quer acertar a resposta de três questões: se o ritmo de crescimento da China vai acelerar; se os Estados Unidos voltarão a divulgar bons dados econômicos; e se os problemas na zona do euro chegarão ao fim. "Com essas incertezas, o setor de commodities certamente não é uma boa ideia."
Outra certeza é que o setor de construção, apesar de apresentar múltiplos indicando que as ações estão baratas, passa por um momento difícil. Os resultados do primeiro trimestre foram ruins e as empresas estão revisando as metas ('guidances') para baixo, lembra Milane. "Se os resultados trimestrais melhorarem, o que não acredito que acontecerá, prefiro perder o começo da alta para somente depois me posicionar nesses papéis", explica.
Faricelli, Capitânia, tem a mesma visão. "É um segmento novo na bolsa, com empresas que cresceram mais no período recente. Imagina como foi para essas companhias locais de repente passar a construir 30 prédios por ano no Brasil inteiro", diz. Para atender a demanda crescente, as construtoras tiveram de fazer parcerias, o que ocasionou problemas de gestão. Ele ressalta que o setor hoje paga a conta por ter crescido rapidamente. Os custos aumentaram e a mão-de-obra é cada vez mais escassa. "Ao analisar os balanços das construtoras, percebe-se uma piora no resultado operacional", explica o gestor.
Outro setor com futuro incerto na bolsa é o de bancos. Um relatório do Deutsche Bank divulgado na semana passada cita preocupações com o endividamento do consumidor, o impacto do retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) em queda e as políticas atuais de governo, que afetam as instituições financeiras.
Enquanto os setores tradicionais da bolsa fraquejam, segmentos menos explorados começam a chamar a atenção dos analistas. Faricelli, da Capitânia, vê boas perspectivas no setor de saúde, com o aumento do emprego formal e o envelhecimento da população, o que favorece a medicina preventiva e a intensificação da realização de exames. Porém, o otimismo não deve ser generalizado a todas as empresas do setor. Milane concorda e lembra que as ações da Fleury, empresa de medicina diagnóstica, podem já ter se valorizado muito, enquanto a Dasa apresentou uma sequência de resultados ruins. "A Amil seria uma melhor opção. É um papel com mais chance de continuar subindo", opina.
A busca por papéis específicos mostra que, no jogo de "resta um" da bolsa, tornou-se muito difícil para o investidor tentar ganhar dinheiro apostando no desempenho de um setor. Ou seja, quem quer fica na bolsa agora tem que analisar empresa por empresa.

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