Itaú leva operações do mineiro BMG



O Itaú Unibanco não comprou o controle do BMG, mas na prática levou a operação do banco mineiro. Em transação anunciada ontem, Itaú e BMG se tornam sócios de um novo banco, o Itaú BMG Consignado, do qual a instituição comandada por Roberto Setubal deterá 70%.
O controle do banco mineiro ficou preservado nas mãos de Flávio Pentagna Guimarães, fundador da instituição, que resistia à ideia de desfazer-se do negócio que criou. Porém, o BMG deve encolher aos poucos daqui para a frente.
Além de escapar das tratativas para convencer o fundador do banco a abrir mão do controle, o Itaú ainda de quebra ficou livre dos longos processos de diligência e das infindáveis discussões de preço ao optar por criar um novo banco, que nasce com um capital de R$ 1 bilhão. De maneira simples, o Itaú cravou de vez seus pés no crédito consignado, com acesso à rede do BMG de 3 milhões de clientes, 637 convênios com órgãos públicos e 4 mil lojas. Tudo isso migrará para a joint venture controlada pelo Itaú.
O empréstimo com desconto na folha de pagamento é um mercado de R$ 172,3 bilhões, no qual o Itaú ocupa apenas o sexto lugar no ranking, com uma carteira de R$ 11 bilhões. O BMG detém a segunda colocação, com R$ 29 bilhões. Só perde para o Banco do Brasil.
"É uma operação importante pra nós em um segmento que continua crescendo", disse Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, em entrevista coletiva na sede do banco. "O banco está procurando reduzir o nível de risco de suas operações, com menor spread inclusive." Por ter como garantia o desconto no contra-cheque dos trabalhadores, o consignado opera com taxas de juros e inadimplência baixas, características cobiçadas em tempos de calote em alta e cruzada contra os spreads deflagrada pelo governo.
A previsão é que o Itaú BMG Consignado alcance em dois anos uma carteira de crédito de R$ 12 bilhões, sendo que o início das operações está previsto para daqui a 90 dias. Para atingir esse patamar, porém, os sócios já sabem que vão ter de aportar mais capital no banco. Ontem, os acionistas minoritários do Itaú reagiram mal à nova sociedade. As ações preferenciais do banco caíram 4,5%, enquanto o Ibovespa fechou o dia em baixa de 3%.
A família Pentagna Guimarães passa a ser acionista minoritária de uma instituição fortalecida, com acesso a capital e funding, itens que vinham emperrando as operações do BMG. "Com a operação com o Itaú, podemos continuar operando sem ter o constrangimento de ter de parar por falta de capital", afirmou Ricardo Guimarães, presidente do BMG.
Paralelamente à formação do novo banco, o BMG ganha do Itaú a garantia de uma linha de "funding" mensal de R$ 300 milhões que será dada por meio da compra de carteiras de crédito por cinco anos. Além da certeza dos recursos, o banco mineiro contará com taxas de captação mais amigáveis do que as praticadas hoje.
Apesar de o novo banco ainda estar sendo formatado, essa linha começa a valer a partir de agora, ajudando o BMG em um momento em que as captações estão caras e escassas para os bancos de pequeno e médio portes, principalmente depois que o Banco Central decretou a intervenção no Cruzeiro do Sul, também uma instituição focada no consignado.
Quando o Itaú BMG Consignado estiver estruturado, 70% daquilo que o banco gerar de novos créditos ficarão retidos na instituição. Outros 30% serão do BMG. Isso não significa, porém, que a carteira de empréstimo consignado do banco mineiro vai crescer daqui para frente. Isso porque a taxa de refinanciamento - pessoas que quitam antecipadamente o consignado para tomar outro empréstimo - é alta, em torno de 30% do estoque. E, ao mesmo tempo, o BMG vai ceder parte de seus créditos para o Itaú, como parte do acordo.
Valor apurou que em três anos a carteira de consignado do BMG deve encolher dos atuais R$ 29 bilhões para algo em torno de R$ 10 bilhões. Ao encolher, automaticamente o BMG ganha folga de capital. Ricardo Guimarães disse que, fora da associação com o Itaú, o BMG vai focar no financiamento de automóveis e no desconto de recebíveis de empresas.
Como o Itaú é o controlador do novo banco, a carteira de crédito será consolidada em seu balanço, aliviando a demanda de capital do BMG. Com a criação do Itaú BMG, o banco mineiro também deve se transformar em uma instituição bem mais enxuta, com custos menores. Parte da equipe do BMG, por exemplo, já deve ser transferida para o Itaú BMG. No primeiro trimestre deste ano, o BMG teve um prejuízo de R$ 69,2 milhões.
Não é à toa que o crédito consignado "encantou" o Itaú. Em maio de 2012, dado mais recente disponibilizado pelo Banco Central, a modalidade registrava um saldo de R$ 172,3 bilhões, alta de 17,6% em doze meses. As demais modalidades de crédito para pessoa física com recursos livres cresceram 15% na mesma comparação.
O grande apelo do consignado se mostra no fôlego com que têm crescido as novas concessões. Só em maio foram concedidos R$ 9,6 bilhões na modalidade, a maior cifra mensal desde que foi regulamentada a modalidade. No ano, até maio, foram concedidos R$ 36,9 bilhões, alta de 28,7% ante igual período de 2011. Os servidores públicos e os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) são os principais tomadores desse crédito, com 85,3% do estoque.
A taxa de juro média anual do consignado nas treze principais instituições que atuam no crédito pessoal ficou em 24,7% em março, de acordo com o BC. Para o crédito pessoal total, a taxa média é de 41,4%, percentual que inclui também as taxas do consignado.
Em estudo sobre o crédito consignado, datado de abril de 2011, o Banco Central fez um levantamento do perfil do aposentado e pensionista do INSS que toma o consignado: 57,2% desses aposentados ganham até um salário mínimo e 87,1% parcelaram o crédito entre 49 e 60 vezes.

PARCEIROS E COLABORADORES UTILIZAM:

.