Fundos de investimento reduzem fatia de títulos atrelados à Selic



Daniel Wainstein/Valor / Daniel Wainstein/Valor
Não há necessidade de mudar referencial dos fundos, diz Giufrida, do BNP
A parcela da carteira dos fundos de investimentos aplicada em títulos públicos atrelados à taxa Selic vem caindo, dando lugar a papéis prefixados e atrelados à inflação. A participação das Letras Financeiras do Tesouro (LFT), cuja remuneração é indexada à taxa básica de juros, no total de títulos públicos detidos pelos fundos de investido caiu de 48,3% em maio do ano passado para 34,4% em maio deste ano, somando R$ 260,4 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
A queda reflete a troca dos títulos pós-fixados em poder do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e em fundos extra mercados por papéis prefixados e atrelados à inflação realizada neste ano pelo Tesouro Nacional. Além disso, a tendência de redução da taxa Selic, hoje em 8%, tem desestimulado a aplicação em fundos atrelados ao CDI e aumentado o interesse dos investidores por portfólios com papéis indexados a índices de preços em busca de um retorno mais atrativo. "Com a queda dos juros, a tendência é que esses portfólios ganhem maior relevância na indústria, reduzindo o apetite para a compra de LFTs", diz Carlos André, diretor executivo de gestão de fundos da BB DTVM.
Seguindo sua agenda de reduzir a indexação da dívida pública à Selic, em junho o Tesouro Nacional realizou a troca de $ 31 bilhões em papéis vinculados à taxa básica de juros detidos pelo FGTS por títulos prefixados e corrigidos pela inflação. Em fevereiro, foram substituídos mais R$ 61 bilhões em LFTs que estavam em poder de fundos extramercado, compostos por receitas de empresas e fundos estatais.
Há ainda R$ 56,158 bilhões de recursos do poder público em fundos DI e de curto prazo, que têm aplicações atreladas à Selic, que o governo poderia aos poucos trocar por papéis prefixados e atrelados à inflação.
A intenção do governo é reduzir a participação dos títulos pós-fixados na dívida pública mobiliária federal interna, cuja parcela caiu de 31,51% em maio de 2011 para 26,3% em maio deste ano.
Os fundos detinham em maio 54% do total do estoque de LFTs em mercado, que somava em maio, R$ 482,18 bilhões.
Com o cenário de queda da taxa básica de juros, os investidores aumentaram a aplicação em fundos que investem em papéis que oferecem potencial de retorno superior ao CDI, como os títulos prefixados e atrelados à inflação. Só a alocação em Notas do Tesouro Nacional série B (NTNs-B) - remuneração atrelada ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - representa 33% do total aplicado em títulos públicos em mercado pelos fundos, praticamente igualando a participação em LFTs.
Na gestora BNP Paribas Asset Management, a participação em LFTs no total da carteira de renda fixa caiu de 45% para 37% de dezembro de 2011 a junho deste ano. Já a alocação em NTNs-B cresceu de 25% para 33%. "Isso é reflexo de um movimento conjuntural de aumento das aplicações em fundos que têm como referencial o IMA-B [que mede o desempenho das NTNs-B] e do crescimento das alocações em papéis atrelados à inflação, que apresentaram um bom retorno com a queda da taxa de juros", afirma Marcelo Giufrida, presidente da gestora do BNP.
Os gestores aumentaram a alocação em títulos privados, cuja participação na carteira dos fundos subiu de 22,5% em maio de 2011 para 24,6% em maio deste ano, somando R$ 512,513 bilhões.
As aplicações totais em títulos públicos representavam em maio 40,1% do total das carteiras administradas pelos gestores, que soma patrimônio de R$ 2,059 trilhões. Há ainda 21,2% do patrimônio dos fundos em operações compromissadas, que consistem em transações de curto prazo com o compromisso de recompra, geralmente atreladas à Selic.
Para Giufrida, da BNP Paribas, não há necessidade de mudança de benchmark das carteiras de renda fixa, que hoje têm como referencial o CDI. "O CDI ainda é um referencial antigo e muito importante para muitos investidores."
O superintendente de gestão de ativos de terceiros da Caixa, Marcelo de Jesus, afirma que isso deve acontecer conforme forem lançadas mais carteiras com novos benchmarks como o IMA-B. "Com a queda dos juros, o CDI deve perder importância como referencial e os investidores vão olhar mais para o retorno absoluto dos fundos."
A mudança na tributação dos fundos e papéis de renda fixa, segundo Giufrida, também poderia acelerar o processo de desindexação da economia da taxa Selic. Para o diretor da BB DTVM, no entanto, isso é um processo natural. "A própria queda dos juros vai forçar os investidores a rever suas aplicações e promover uma redução da aplicação em LFTs."

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