Colecionador na pele de banqueiro



Por Vanessa Adachi e Robinson Borges | De São Paulo
LULA / LULA
Na manhã do dia 3 de março de 2004, num luxuoso hotel da capital paulista, eram revelados os detalhes da fusão entre a cervejaria belga Interbrew e a brasileira Ambev, uma das maiores transações internacionais envolvendo uma companhia do país até aquela data. Fora dos holofotes, sentado em silêncio na primeira fila da plateia, com uma pasta de couro provavelmente recheada de documentos apoiada no chão ao lado de sua cadeira, estava José Olympio Pereira Neto. Ele havia trabalhado exaustivamente na costura do negócio, prestando assessoria ao trio Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, então controladores da Ambev. Executivo do americano Citibank, Olympio conhecera as três feras ao ingressar no lendário Banco Garantia, nos anos 80, e viria a atuar como seu banqueiro de investimentos em algumas transações em anos posteriores.
O anonimato descrito na cena pode induzir a uma falsa impressão sobre o personagem. José Olympio é um homem de assinaturas. Múltiplas. A começar do nascimento, quando foi batizado em homenagem ao avô, o conhecido e influente livreiro carioca fundador da editora José Olympio, agora integrada ao grupo editorial Record. No mercado financeiro, ainda que nos bastidores, Olympio atuou em negócios relevantes e consolidou-se como um dos mais destacados banqueiros de investimento do país, contribuindo para a construção de reputações, algumas vezes controversas. Os gordos bônus a que fez jus como um dos mais bem pagos entre seus pares financiaram sua outra face. É um dos maiores colecionadores de arte contemporânea brasileira e ostenta um portfólio de "blue chips" que lhe abriu as portas para ocupar assentos em conselhos dos mais influentes polos da arte aqui e fora, numa lista de tirar o fôlego: Pinacoteca, The Museum of Modern Art de Nova York, o MoMA, Tate Modern de Londres e Centre Georges Pompidou de Paris. Mestre do "networking", não raro é anfitrião de figuras influentes do circuito mundial das artes plásticas em visita ao Brasil.
Agora, numa sexta-feira 13 em São Paulo, faltam poucos minutos para as 12h30, a hora combinada, quando ele atravessa o imponente salão principal, decorado com madeira escura e lustres pendentes do teto, e chega à primeira mesa da varanda lateral, um canto mais discreto do restaurante, único espaço liberado para este "À Mesa com o Valor". Ao marcar o almoço - que precisou ser remarcado algumas vezes para se acomodar à sua atribulada agenda -, Olympio fez questão que fosse no Parigi, seu preferido. Uma das sete casas da família Fasano na cidade, é o restaurante para ver e ser visto por excelência, especialmente no meio empresarial. Ocupou-se pessoalmente da reserva, valendo-se do cartaz de frequentador assíduo para conseguir a permissão. Só não consentiram que fosse na sua mesa de sempre, próxima aos janelões frontais. O Parigi fica a cinco minutos a pé do escritório do Banco Credit Suisse em São Paulo, no qual está há oito anos e passou a presidir no mês passado. Olympio almoça ali no mínimo duas vezes por semana, às vezes quatro. Porque fica perto e porque é bom. "Gosto de restaurante cheio e costumo dizer a nossos clientes que somos como o Parigi: estamos ocupados porque somos bons."
Ostentando o uniforme do mercado financeiro, terno escuro e gravata de estampa discreta, o carioca nascido no Flamengo que adotou São Paulo como a sua cidade está bem mais magro que há alguns anos. Chega sorridente, esbanjando simpatia, cheio de energia e pronto para falar. Dispensa aquecimento, está tão bem preparado quanto o banqueiro que estudou o cliente para disputar o mandato de um grande negócio.
A princípio, são os temas ligados às artes que fluem. E com rapidez. A mesma de seu raciocínio. É capaz de manter-se firme em sua linha de argumentação, ao mesmo tempo em que não deixa de registrar e responder às perguntas dos interlocutores que o interrompem, para logo em seguida retornar ao exato ponto em que estava.
No MoMA, tem assento em dois organismos. Há dez anos participa do International Council, "uma coisa mais, assim, de 'networking' global". Mas há cinco anos passou a integrar, desde a sua criação pela colecionadora venezuelana Patricia Cisneros, um fundo para comprar obras de artistas latino-americanos para o museu. Os conselheiros contribuem com dinheiro e ajudam a analisar e sugerir obras e, às vezes, engajam-se em quase aventuras para consegui-las. Foi assim, quando Olympio decidiu doar ao MoMA a obra "Carimbos", assinada por Carmela Gross, artista que ele considera "maravilhosa". Ouviu, então, do diretor do MoMA que o sonho do museu era adquirir "Projeto para a Construção de um Céu", obra de Carmela que pertencia a seu ex-marido. "Aí virei e disse: estou com a missão, vou conseguir a obra!" Localizou o proprietário e fez a proposta de doação. Ouviu uma negativa. Pouco depois, o ex-marido de Carmela o procurou dizendo que não tinha mais onde pôr a obra e não a doaria, mas poderia vendê-la. "Comprei." Agora, a obra será doada ao MoMA como "promised gift". "Fica comigo enquanto eu viver, depois que eu morrer vai pra lá."
Especular é regra no mercado financeiro, mas Olympio desaprova a transposição da prática para as artes. "Para a garotada do mercado, fiquei como referência nas artes. Sempre me perguntam o que vai bombar." A resposta costuma ser padrão: "Esse é um negócio que você compra pra te dar prazer e, diferentemente da maioria das outras coisas que você compra pra te dar prazer, tem risco de valorizar. A TV de 50 mil polegadas vai te dar um puta prazer, mas vai desvalorizar."
Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
Olympio no Parigi, seu restaurante preferido: para manter a forma, saboreia a salada "JO", suas iniciais
Embora diga não buscar a valorização das obras que compra, parte substancial de seu patrimônio está investido em arte. "Até porque o que comprei nos últimos 20 anos valorizou muito." Sua relação com o preço das peças é ambígua. "Não quero que o preço suba, porque quero comprar mais. Tenho um quadro da Beatriz Milhazes que estou feliz porque vale uma fortuna. Foi um investimento extraordinário. Mas estou um pouco infeliz, porque não posso comprar mais nada dela. Quer dizer, não é que não posso, não quero comprar a esse preço." O quadro em questão está avaliado em torno de US$ 1,5 milhão e é um dos mais valorizados de sua coleção.
Todos à mesa beliscam o antepasto quando a conversa resvala para o tema familiar. O entrevistado herdou o nome do avô, mas o gosto pelas artes aprendeu da avó. "Era crítica de arte, a Vera Pacheco Jordão. Se separou do meu avô, tinha uma coluna de artes plásticas no 'Globo'." A avó Vera, que chama assim, pelo nome completo, viria a aparecer outras vezes na conversa na forma de lembranças carinhosas, cercadas de admiração pela mulher independente, que, após separar-se do marido, internou os dois filhos em colégios na Europa e se aventurou numa carreira como jornalista. Na mais marcante das passagens recordadas, Olympio volta à adolescência, aos seus 14 anos, a um dia em que saíra para comprar roupas com a avó e ouviu dela a pergunta:
- Meu filho, você é uma pessoa moderada?
- É, vovó, acho que sou moderado, sim.
Respondeu achando que aquilo era obviamente o que a avó queria ouvir.
- Pois eu não sou nada moderada.
Olympio gargalha com a lembrança e a constatação de que herdou da avó a característica marcante. "Gosto de tudo intensamente, sou absolutamente compulsivo. Todo colecionador é compulsivo. E não é só de arte, de qualquer coisa. Compulsivo e acumulador."
Quando ainda era um colecionador principiante, perguntava-se onde colocaria a obra que o atraía. Até que uma vez o artista plástico José Resende lhe disse que, se pretendia mesmo ser colecionador, deveria deixar de lado "esse negócio de restringir as obras ao número de paredes". "Nunca mais pensei onde iria pôr um trabalho quando compro."
Ele não chega a ser uma Patricia Cisneros, com suas mais de 5 mil obras, mas tem uma coleção de 1,2 mil peças. No passado, chegou a ter uma casa fechada, tomada de obras, que servia como depósito. Agora espalha a coleção por suas três casas - a residência em São Paulo, um imóvel na praia e o apartamento no Upper East Side em Nova York - e ainda um quarto endereço: um apartamento na avenida São Luís, no centro de São Paulo, que funciona como galeria fechada. Depois de consultar a mulher, Andrea, Olympio preferiu não abrir as portas de sua residência oficial na região da Cidade Jardim para a reportagem, mas recebeu os repórteres com disposição na São Luís, dias depois do almoço no Parigi.
O apartamento tem assinatura que o distingue. Pertenceu ao artista e marchand Marcantonio Vilaça e foi comprado por Olympio no ano seguinte à morte dele, em 2001. "O prédio é bem modernista, com uma 'porte-cochère' [pórtico]". Depois de passar por uma reforma radical, tocada pelo arquiteto Felippe Crescenti, que lhe arrancou quase todas as paredes, o espaço passou a funcionar como uma espécie de galeria, para abrigar a porção mais recente de sua coleção. "A São Luís não é um espaço público, mas funciona 'upon invitation'. Quem liga e quer ver, a gente agenda."
"Gosto de restaurante cheio e costumo dizer a nossos clientes que somos como o Parigi: estamos ocupados porque somos bons", diz José Olympio
Algo parecido com o que ele quer fazer em sua casa, atualmente em reforma assinada pelo arquiteto Aurélio Flores, onde está construindo uma galeria no subsolo. "A ideia é ter lá as coisas mais consolidadas que tenho e usar esse espaço de galeria para fazer exposições e chamar as pessoas." Ao citar o nome do arquiteto, Olympio faz uma intervenção na própria fala. "Tenho um pouco de problema com coisas meio na moda. Adoro cachorros. E o labrador é simpático, bonito, afável, mas jamais teria um, porque é muito lugar-comum, entendeu?" E qual é o seu cachorro? "Tenho galgo italiano e dog alemão."
Em qualquer das casas forradas de obras, às vezes fica difícil para os desavisados distinguirem o que é arte do que não é. Numa ocasião, uma funcionária da casa achou por bem não tirar um par de sapatos com meias de cima do móvel, certa de que se tratava de um novo item exótico da coleção. No apartamento da São Luís, por pouco a repórter não apoiou a bolsa em um banco que não era banco.
A primeira obra de sua coleção foi comprada em 1985. "Uma gravurinha da Djanira, num leilão vagabundo." A primeira tela veio um ano depois, já casado com Andrea. Quase sempre que fala da coleção, Olympio refere-se a "a gente". Andrea e ele formam uma entidade no mundo das artes. Fizeram bodas de prata em 2011 e têm três filhos. "Ela é minha companheira total e acho que nosso casamento funciona não só porque a amo, mas ela é minha melhor amiga, antes de tudo."
A conversa já dura 20 minutos, quando ele é interrompido pelo garçom, que chega para anotar os pedidos. Olympio conta que come sempre o mesmo prato. "Fiz um regime há dois anos que deu certo. Perdi 18 quilos e tento manter. E aí inventamos a salada JO. Aqui tem uma salada chamada verde com queijo de cabra, maravilhosa, que vinha com duas torradas, um queijo de cabra e tomate-cereja. Pedi para fazer grande, dois queijos de cabra, sem torrada e com tomate-caqui." Embora não esteja no cardápio, seus amigos costumam pedi-la pelo nome JO. "Venho muito aqui, mas o meu tíquete baixou, infelizmente. Eles não gostam muito, porque é barato!"
Olympio vai de salada assinada JO, assim como o repórter e a fotógrafa. A repórter pede a versão original da salada como entrada (que acaba não chegando à mesa) e um haddock sugerido com ênfase pelo entrevistado ("é maravilhoso!"), também a escolha da assessora de imprensa Marilia Paiotti. Todos dispensam o vinho e Olympio retoma do ponto exato em que parou.
Em 1998, quando já tinha uma coleção respeitável, ele e a mulher perceberam que havia muitos artistas "acontecendo" naquele momento e que dez anos à frente se arrependeriam por não ter comprado. Pediu a um marchand que apresentasse a ele "essa nova geração" e saiu comprando, coerente com a compulsividade. "Mas aí ele me mostrou um cara do chocolate e eu virei e disse: 'Não me convence'." Tratava-se do hoje consagrado Vik Muniz, conhecido por trabalhar com materiais diferentes, de sucata a geleia, pasta de amendoim e… chocolate. "Mas continuei olhando o cara do chocolate e virei e disse assim: 'Tem mérito'. Reconsiderei e comprei."
Interlocutor envolvente, Olympio deixa os outros à vontade e, quando se nota, assumiu o comando. No mercado financeiro, é conhecido pelos colegas e concorrentes por não deixar pontas soltas. Procura estar sempre um passo à frente dos demais e nunca ser surpreendido. No almoço, mostrou-se aberto a falar sobre (quase) tudo. Até quando o assunto poderia ser incômodo, a resposta estava ali, pronta.
- Você começou a carreira no Garantia e subiu rápido, mas não chegou a ser sócio, que era o sonho de todo mundo da sua geração.
- Por minha única e exclusiva culpa. Já passei da fase de achar que fui sacaneado. Era imaturo, politicamente um desastre, voluntarioso.
- Não é mais? Era compulsivo no trabalho?
- É, um pouco compulsivo, 30 anos. Já me ressenti, foi um negócio horroroso. Hoje, ressentimento "no more". Mas foi fonte de enorme sofrimento durante bastante tempo.
Olympio não credita à velha-guarda do Garantia encabeçada por Lemann, a quem chama de "os originais", o fato de ter sido barrado em sua ascensão no banco. Acha que foi coisa da turma da sua geração, com a qual diz se dar muito bem hoje. "Era um grupo de gente diferenciada, inteligente. E eu, graças a Deus, tive a felicidade de conviver com essa turma."
Ao mesmo tempo em que aponta o que diz ter sido falha sua, Olympio relativiza a derrota. "Se tivesse sido sócio, teria sido um desastre. Teria acontecido em janeiro de 1997, na véspera da quebra do Garantia. Imagina, eu lá preso. Obviamente, era competitivo e queria, mas, no fim, tudo aquilo me empurrou para a frente, me levou a fazer outras coisas." Os sócios que não endossaram sua promoção tiveram de ficar cinco anos no banco depois da venda ao Credit Suisse, por exigência do contrato. Olympio partiu para a casa de investimentos DLJ e, quando essa também foi comprada pelo banco suíço e no Brasil passou a ser tocada pela mesma turma do Garantia, seguiu para o Citi. Só mais tarde, em 2004, iria para o Credit Suisse, mas aí o pessoal já era outro.
O conhecido avô livreiro foi determinante na definição dos rumos de sua vida. Mas não como se poderia supor. "Meu avô Zé Olympio, o editor, entrou em dificuldades e por orgulho não quis pedir concordata. O fato é que eu acordo, aos 13 anos, com a família perdendo tudo. Aí eu virei e disse: esse negócio de não ter dinheiro é muito ruim, principalmente já tendo tido. Porque se não teve não sabe o que é, né?", pergunta, sem esconder certa mágoa. Por outro lado, o sucesso do avô materno à frente de uma construtora levou-o a estudar engenharia civil pela PUC do Rio. Quando saiu da faculdade, a única certeza que tinha era que não seguiria a carreira. "Não era minha praia. Se tivesse ficado lá, seria o cara menos bem-sucedido do mundo."
Numa conversa com um amigo do pai que trabalhava no mercado financeiro, interessou-se por aquele mundo onde se ganhava muito dinheiro. Era 1984 e ouviu dele que havia dois lugares para trabalhar: no Garantia ou num outro banco que uma turma dissidente do Garantia havia acabado de fundar também no Rio, o Pactual. "Eu disse: vou tentar o Original. Se não funcionar, tento a dissidência." O caminho para o Garantia foi mais uma amizade do pai, dessa vez com o jornalista e escritor Otto Lara Resende, que indicou o engenheiro recém-formado ao filho, André Lara Resende, sócio do banco.
Em março de 1985, Olympio começou na área de análise. Um mês depois, juntou-se ao banco Armínio Fraga, vindo do doutorado na Universidade de Princeton. "Nunca vi uma concentração igual de inteligência e capacidade como lá. Falo para todos os garotos aqui: 'Porra, tenta estar sempre no meio dos excepcionais, porque excelência contagia, da mesma forma que mediocridade'." O garçom chega para retirar os pratos e Olympio avisa que ainda vai terminar o seu.
Depois de viver a euforia do mercado de ações na metade dos anos 80, Olympio enfrentou a ressaca trazida pelo fracasso do Plano Cruzado 2, que matou os negócios. Resolveu estudar. Foi aprovado para um MBA em Harvard, onde ficou de 1988 a 1990. Na volta, o banco já havia se mudado para São Paulo e assim começou sua etapa paulistana.
Provocado, Olympio enumera operações das quais participou que considera emblemáticas, como a pulverização do controle da Lojas Renner e a fusão da Bovespa e da BM&F e lembra que já chegou a chorar no fechamento de ao menos uma operação. "No leilão da Copene, quando a Odebrecht ganhou, não sei quem chorava mais, eu ou o [publicitário] Mauro Salles, que estava do meu lado, de tanta emoção por ter funcionado. Eu também me emociono, me envolvo."
No mercado financeiro, é comum ouvir que Olympio está por trás da ascensão de Eike Batista. Ele se recusa a assumir o crédito sozinho e diz que foi o time do banco que enxergou a chance de lançar a mineradora MMX na bolsa e captar US$ 500 milhões em 2006, sem que um único quilo de minério de ferro tivesse sido produzido até então. Foi a primeira abertura de capital do conglomerado "X". "Nunca até então, no mundo, uma 'junior company' havia captado tanto dinheiro. O Eike perguntou se dava pra levantar e a gente disse: dá. Pegamos aquele touro à unha."
- Você acredita no Eike ainda? Muita gente acha que as empresas são de papel, não produzem nada e que ele ainda terá problemas.
- Acredito totalmente. O Eike perturbou o establishment brasileiro como nunca antes. De novembro de 2005 até hoje, ele enxergou uma oportunidade e se tornou um dos homens mais ricos do mundo, o mais rico do Brasil. Isso é insuportável para o establishment. E ele desafiou a cultura do 'low profile' brasileira e está introduzindo a cultura de ter orgulho do sucesso.
Olympio segue elogiando a solidez das "empresas X" e a audácia do empresário para fazer um volume de investimentos sem paralelo no setor privado do país, quando a reportagem quer saber se André Esteves, o controlador do banco de investimentos BTG Pactual, seria o Eike do mercado financeiro. Num almoço sem pausas e sem silêncios, pela primeira vez o entrevistado interrompe a fala. Passam-se alguns segundos e ele, com a expressão ligeiramente contrariada, responde:
- Não quero fazer comentário sobre o BTG.
Segue-se algum constrangimento, uma tentativa de restabelecer o clima descontraído que predominou no encontro.
- O mundo das artes ajuda a abrir portas?
- Sem a menor dúvida. E tem muita gente que tenta usar desse mundo para galgar socialmente, pra se promover. Se me ajudou? No meu caso, acho que ninguém duvida que é uma paixão genuína, entendeu? Acho que o fato de eu ser uma pessoa com outros interesses, e não ser apenas focado em banco, me torna um pouco diferente, e isso é bom, né?
Olympio tem expediente diário de 10 a 12 horas, mas trabalha 24 horas, sonha com problemas de clientes e pensa em soluções enquanto escova os dentes. Apesar do ritmo, dorme bem. Quando a insônia o pega, recorre a meio comprimido de Frontal. "Para manter a sanidade", faz análise há dez anos. E para cuidar do corpo corre e faz musculação. "Quando meu filho mais novo aceita, jogo tênis com ele. Com o maior não dá mais." Os 50 anos completados em maio foram comemorados numa grande festa oferecida pela mulher e pelos filhos no Espaço Villa Lobos, antigo depósito de vidros da Carglass, numa região industrial da cidade que começa a ser revitalizada.
O "sommelier" do grupo Fasano, Manoel Beato, reconhece o cliente e aproxima-se para saber se tudo corre bem. Quando se afasta, a conversa muda. Passeia brevemente pela política, com rápidos elogios à presidente Dilma Rousseff, em quem Olympio diz não ter votado ("nunca votei no PT"), e volta à família. Dessa vez para falar do pai, Geraldo, que fundou a editora Salamandra. Olympio lembra-se da figura "fantástica", mas, do seu ponto de vista, idealista demais. "Ele funda a Salamandra e diz que iria valorizar o ser sobre o ter. Eu quebrava um pau horroroso com ele. Imagina, tínhamos acabado de tomar um tombo."
Destacar-se em sua área de atuação parece ser regra e não exceção na família. Sua irmã, Lygia da Veiga Pereira, é uma das mais respeitadas geneticistas do país, os irmãos Marcos e Tomás mantiveram a tradição familiar e são os donos da editora Sextante. "A família tem uma química boa. E minha mãe é a arma secreta da Sextante. Ela é revisora, é inacreditável."
Sobre os três filhos, Olympio parece exercer grande influência, embora diga que não interfere nas escolhas. A filha mais velha, Anna Carolina, de 22 anos, acabou de se formar em artes plásticas. O do meio, José Thomas, de 19, cursa economia na Universidade de Chicago e o pai acredita que deve seguir carreira na área financeira. O mais novo, José Antonio, de 15, se considera um grande vendedor. "Ele é meio malandro, mas gosta mais das exatas."
Diante do prato de morangos já vazio, Olympio aceita um café, "pingado, com um pouquinho de leite". Diz que já avisou os filhos para não contarem com herança. "A herança que tive foram meus valores, minha educação. Vou dar o apoio inicial, depois, que se virem." Olympio espera não precisar se desfazer de sua coleção no futuro, como sua família, que vendeu tudo quando a editora do avô quebrou. Mas também não pretende repassá-la aos filhos. Pensa em fazer uma doação a alguma instituição já existente, como a Pinacoteca, e revela um plano de torná-la pública bem antes disso.
"Em São Paulo só se consegue ver arte contemporânea brasileira em galerias. Não existe museu. Dei a ideia para o Marcelo Araújo [ex-diretor da Pinacoteca] de fazer uma pinacoteca contemporânea, com acervo de colecionadores. Pus o meu à disposição." O lugar para isso já foi identificado, o galpão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, ao lado da Pinacoteca do Estado. O projeto foi apresentado ao governo de São Paulo, mas está parado.
Já passa das 15 h e o BlackBerry do entrevistado toca. Do outro lado está a assistente Teresa. "Tá... em cinco minutos eu tô aí. Brigado", desliga. "Olha, eu tinha uma reunião no banco às três. O papo tava tão bom que eu...", desculpa-se. O almoço se estendeu por mais de duas horas e meia, superando muito os 40 minutos habituais - informação entregue pelo gerente, Hélio Andrade, aos repórteres na chegada. Olympio se despede. "Tá bom, gente, brigado." Já não há ninguém no salão para ser visto.

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