Calote tira espaço de banco grande e força crédito na agência



A escalada da inadimplência, que em maio superou o patamar histórico de 6%, mexeu com o mercado de financiamento de veículos. Os grandes bancos pisaram no freio e promoveram uma forte redução das concessões de empréstimos, como mostram os dados de registro de automóveis do sistema da Cetip, obtidos pelo Valor. Além disso, começa a ganhar corpo a nova estratégia das instituições financeiras de priorizar o crédito concedido nas próprias agências bancárias, em detrimento da linha oferecida nas concessionárias.
Um dos que mais perderam participação foi o Itaú Unibanco, líder no segmento de veículos novos, que saiu de uma fatia de mercado de 25% das liberações de empréstimos, em fevereiro, para 16% em maio. O Bradesco, que caiu de 15% para 13%, e o Santander, de 10% para 7%, também desaceleraram o ritmo.
No mercado de usados, o Santander, que vinha ganhando mercado na esteira do recuo da BV Financeira, inverteu esse movimento a partir de março. O banco caiu de 23%, quando era líder, para 17% em maio. Itaú e Bradesco mantiveram suas participações, de 18% e 17%, respectivamente.
Com a redução do ímpeto da BV Financeira, o Santander avançou sobre o segmento em que a BV atuava com mais ênfase: os carros usados mais antigos, conta Felix Cardamone, vice-presidente da Santander Financeira. Em 2012, no entanto, critérios mais rígidos na concessão de crédito limitaram o avanço do banco em usados. "É um movimento geral de mercado. Passamos a exigir um pouco mais de entrada e a reduzir prazos nessa operação", diz. Esse maior rigor, somado ao retorno gradual da BV ao mercado, causaram a redução da fatia do Santander em usados.
O único dos grande que ganhou "market share" foi o Banco do Brasil. O banco público, aliás, roubou espaço com uma mudança importante de estratégia, passando a conceder empréstimos primordialmente nas agências do próprio banco, deixando de lado as concessionárias e as agências de carros usados, diz Paulo Caffarelli, vice-presidente do BB.
A instituição conseguiu reduzir as taxas de juro mínimas de 1,4% ao mês para 0,77%, já que evitou o pagamento de uma espécie de comissão para as concessionárias ou revenda de usados. Além disso, o BB ampliou o controle da qualidade da carteira, já que são clientes do próprio banco, com histórico na instituição.
Outros bancos já estudam replicar esse modelo, como o Santander. Se concretizada, essa pode ser uma mudança de modelo, voltando ao que era feito há dez anos.
Nesse cenário ruim para os bancos comerciais, as instituições ligadas às montadoras saíram ganhando. A pressão dos controladores para destravar a venda de veículos e diminuir os estoques fez os braços financeiros das fábricas despejarem dinheiro no mercado com taxas subsidiadas. "Feirões", "promoções" e "taxa zero" viraram palavras de ordem.
O resultado foi a disparada da participação de mercado desses bancos, que passaram de um patamar ao redor de 25% nos primeiro meses do ano, para 33% em maio (maior nível da série histórica). "Desde abril, as montadoras e seus braços financeiros passaram a fazer mais vendas com taxas subsidiadas", afirma Décio Carbonari, presidente da Anef, associação que reúne bancos de montadora. "Foi uma estratégia para responder às vendas em queda e funcionou."
As "taxas zero" ganharam o reforço das reduções do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e dos cortes na taxa básica de juros. "Conseguimos oferecer propostas melhores neste ano que no ano passado", diz Nuno Zigue, diretor do banco PSA Finance, das montadoras Citroen e Peugeot.
Mesmo com maior apetite para concessões, os bancos de montadora não ficaram imunes ao aumento da inadimplência. Ainda que mantenham índices significativamente abaixo da média do mercado, entre 1% e 3%, ambas instituições ouvidas relatam que os calotes acima de 90 dias vem crescendo. "Temos que ter, por uma questão estratégica da montadora, apetite por financiamento", diz Carbonari, que também preside o Banco Volkswagen.
"A taxa subsidiada espanta a concorrência dos bancos comerciais, que não conseguem competir nesse nível", diz Eduardo Varella presidente do Banco BMW, que também aumentou a frequência de promoções.
"Só temos um canal e um negócio. Nós temos que criar condições para resistir a ciclos de alta de inadimplência sem parar as concessões", diz Zigue.
O pacote de estímulo à indústria automobilística anunciado pelo governo em 21 de maio - que combinou cortes no IPI, IOF e medidas para destravar o crédito -, tem gerado maior fluidez nas liberações dos financiamentos, segundo revendas e montadoras ouvidas pelo Valor. O cenário, contudo, segue mais restritivo em relação ao ciclo de expansão dos financiamentos que sustentou a sucessão de recordes das vendas de carros nos últimos três anos.
As aprovações de fichas de crédito subiram de 35% para 55%, mas já não estão disponíveis as condições confortáveis de anos anteriores. Hoje, os bancos comerciais pedem entrada de 30% e oferecem prazos que giram ao redor de 40 meses. O Santander, por exemplo, que chegava a dar prazo de até 60 meses para usados, estabeleceu limite de 36 meses.
O ambiente é ainda mais delicado no segmento de motos, no qual grande parte dos consumidores tem dificuldade em comprovar renda. As aprovações de crédito estão ao redor de 17%, segundo informam dirigentes da Fenabrave, entidade que reúne as revendas.

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