Real figura entre "piores" moedas


Por Eduardo Campos | De São Paulo

Graças ao salto de 21% no preço do dólar em relação ao real desde a cotação mínima registrada em fevereiro até o pregão de sexta-feira, no acumulado de 2012 a moeda brasileira figura como destaque mundial de baixa em diversas linhas de comparação. É a pior moeda entre os países dos Brics, entre os principais vizinhos da América Latina e outros emergentes comparáveis, como Austrália, México, Polônia e Hungria.
No ano, o real cai 9,66%, segundo dados da "Bloomberg", enquanto o iene, segundo pior em uma cesta com 16 moedas, recua 4,38%. Em 12 meses, o quadro é ainda menos favorável, o real tem queda de 23%.
Como nada é simples no mercado de câmbio, não há apenas um fator que explica como o real saiu de destaque mundial de alta até o fim de fevereiro para destaque de baixa. Entre eles, certamente é preciso mencionar a forte queda da taxa de juros básica no país.
Para o professor da PUC-RJ, Márcio Garcia, o país estava supervalorizado no mercado internacional. O crescimento forte de 2010, as perspectivas de investimento, bem como o calendário esportivo alçaram o país à condição de "queridinho" do capital internacional.
No entanto, diz Garcia, parece que os investidores se deram conta de que há aspectos negativos a considerar. Apesar de fazer parte dos Brics, o Brasil, assim com o a Rússia, está longe de apresentar a dinâmica de crescimento de Índia e China. Agora em 2012, as revisões para baixo nas previsões de crescimento foram quase que constantes, e a chance de o PIB crescer ainda menos que os 2,7% de 2011 é cada vez mais real.
A deterioração nas perspectivas de crescimento se alia a um ativismo do governo no "front" cambial. Algo que faz diferença, na visão de Garcia. "Quando você trata o estrangeiro mal, e tem países tratando bem, é natural que você seja deixado de lado", diz.
Segundo o professor, mesmo que o governo retire todos os controles cambiais, pode ser que seja observado um fenômeno de "fadiga", de quebra de confiança, pois o investidor fica desconfiado com as constantes mudanças nas regras.
Isso ocorre mesmo com as restrições sendo impostas aos ingressos, algo que não é tão agressivo quanto o controle de saídas.
"A maioria dos investidores não gasta muito tempo estudando o Brasil. Se tem dificuldades e muita burocracia, ele pode desistir."
Se o governo quer crescer a taxas de 4% a 5% ao ano, precisa de poupança externa, pois essas taxas de crescimento não se sustentam com a poupança interna de no máximo 18% do PIB. "Entre não crescer e crescer com a poupança externa, o melhor é crescer", diz o especialista.
Além do fator crescimento e da recente piora da crise externa, que tira atratividade dos ativos de risco, Garcia aponta as "barbeiragens" do governo como mais um fator a pesar na taxa de câmbio.
Para Garcia, existe uma ignorância do governo com relação ao mercado de derivativos. Ao manter o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 1% sobre a ampliação de posição vendida, o governo mantém os agentes privados fora da ponta de venda, ou seja, ele não tem "parceiro" para conter a valorização acentuada do dólar. "Quanto se quer evitar a apreciação, a medida é boa, mas, quando se está na ponta contrária, ela é péssima. E essa é uma possibilidade para a qual o governo não estava preparado", diz.
Para Garcia, a equipe econômica parece desconhecer a importância do mercado de derivativos no Brasil. É lá que o preço é formado, particularidade inerente ao mercado brasileiro. Não adianta olhar o fluxo de dólar à vista.
Ainda de acordo com Garcia, o Brasil está migrando para uma política de banda informal no câmbio. O modelo de pisos e tetos para o dólar parece funcionar bem enquanto a inflação não representa um problema. Mas, quando o mundo voltar a crescer e as commodities tomarem fôlego, são outros os problemas que vão aparecer, avalia ele.
"Tem de se começar a pensar nesses cenários para se montar uma estratégia. Mas a estratégia por aqui parece ser a seguinte: peça para frente que xadrez é sorte", conclui Garcia.
De visão semelhante, o professor da FEA-USP, Carlos Eduardo Gonçalves, acredita que a lua de mel do investidor externo com o Brasil está acabando. Para ele, o grau de intervenção do governo Dilma Rousseff na economia é bem maior do que nos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva. Há a sensação de ingerência em grandes empresas como Petrobras e Vale e a "pirotecnia" foi longe demais no mercado de câmbio.
No curto prazo, diz Gonçalves, o câmbio é a variável mais difícil de se explicar com qualquer tipo de modelo. Feita essa ponderação, o professor aponta que, considerando o diferencial de juros do mercado local e externo, a volatilidade do mercado e o comportamento das commodities, a taxa de câmbio está acima do que seria considerado justo. A taxa de câmbio seria mais para R$ 1,95 do que para os atuais R$ 2,05. "Pode ser erro estatístico, mas minha interpretação é que essa diferença reflete a mão do governo no mercado cambial."
Para o professor, mesmo com uma forte melhora de quadro externo, o dólar não deve voltar à linha de R$ 1,90 no curto prazo.

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