No Japão, celular já faz até tradução simultânea



Murillo Camarotto/Valor / Murillo Camarotto/Valor
A estudante Mariko Hara usa redes sociais e tem 24 canais de TV digital no celular, com sistema que traduz instantaneamente suas conversas do kanji para o inglês
A reboque da febre dos smartphones no Brasil, cresceu quase no mesmo ritmo o número de ambientes equipados com Wi-Fi, o acesso sem fio a internet em banda larga. Pioneiros na sua oferta, os cafés brasileiros foram seguidos por restaurantes, bares, lojas, hotéis e outros estabelecimentos comerciais, todos dispostos a afagar os clientes com uma espécie de oásis de navegabilidade em diversas partes do país. Até parada de ônibus em São Paulo já oferece internet sem fio, para deleite dos usuários mais entusiasmados.
No Japão, onde multidões se deslocam com a cabeça estática e os olhos fixos nas telas dos celulares, o cenário é diferente. Ao chegar à capital, Tóquio, causa certa estranheza a ausência de Wi-Fi gratuito em locais como restaurantes, lojas e áreas comuns de hotéis. A explicação está na elevada capacidade da banda larga móvel em operação no país asiático, que acaba tornando menos atrativa para o usuário a opção pelo serviço de outros provedores.
Por preciosismo nipônico, a banda larga móvel ainda não é localmente chamada de quarta geração (4G), mas sim de 3,9G. Mesmo não desfrutando do título, o serviço funciona desde 2010 no padrão LTE (Long Term Service), o mesmo que será oferecido como 4G pelas operadoras no Brasil. A diferença é que os japoneses só devem reconhecer a nova geração quando a velocidade de download atingir comercialmente 100 megabits por segundo (Mbps). Atualmente, o padrão reconhecido como 3,9G, oferecido pela NTT DoCoMo, maior operadora de telefonia do Japão, chega a 37 Mbps na grande Tóquio, um colosso se comparado ao serviço verde e amarelo, que dificilmente passa de 1 Mbps.
É por conta dessa banda que a estudante Mariko Hara assiste no celular 24 canais de TV digital e vídeos sob demanda em alta definição, tudo sem solavancos. Por US$ 100 é possível contratar um pacote de internet "flat", como os japoneses chamam o serviço de acesso ilimitado.
"Também uso muito as redes sociais, o chat e o Skype", conta a jovem. Com uma agilidade assustadora, ela digitava no aparelho suas respostas em kanji - ideograma japonês - e jogava em um tradutor eletrônico, para o inglês. E assim se deu a entrevista ao Valor.
Em breve, porém, vai ser mais fácil. A DoCoMo está testando um aplicativo, baseado em LTE e computação em nuvem, que faz a tradução simultânea de conversas feitas por videochamada. O sistema, de acordo com a operadora, deve ser lançado ainda este ano.
Uma das principais expectativas para a chegada do padrão 4G é justamente a consolidação dos serviços móveis de multimídia e de geolocalização. Atualmente, os japoneses já comandam por voz os aplicativos de mapas. Basta dizer o lugar e um mapa completo surge na tela, indicando a localização e tudo ao redor, como lojas, estações de metrô, hospitais etc. No mesmo serviço, lojas distribuem cupons eletrônicos do tipo "entre aqui agora e ganhe um desconto".
Também baseado em LTE e nuvem, a operadora japonesa promete para breve um aplicativo de reconhecimento instantâneo de imagens. Uma fotografia é tirada de um edifício e, em segundos, surge na tela outro retrato, do mesmo local, 20 ou 30 anos atrás. O conceito que se tem hoje é de que o serviço 3G facilita a vida das pessoas, mas o 4G interfere diretamente.
Desde que lançou comercialmente o padrão tecnológico LTE no Japão, em julho de 2010, a operadora migrou 2,3 milhões de clientes para o serviço. Até março de 2013 serão investidos US$ 3,6 bilhões para levar o LTE a 40% da população. A meta é atingir 98% de cobertura em 2014 e acumular 10 milhões de clientes nos próximos 12 meses. A empresa também pretende lançar este ano o serviço LTE Plus, que será finalmente chamado de 4G. Os testes têm apontado velocidades de transmissão de 1 Gbps no download.
Com toda essa abundância de capacidade, o tráfego de dados disparou no Japão. Em 2012 a receita da DoCoMo com dados poderá atingir US$ 25 bilhões e, pela primeira vez, superar o faturamento com serviços de voz. O volume de dados consumidos este ano é 80% superior ao verificado no mesmo período de 2011. Por essa razão, a companhia teve que ampliar o espectro de sua banda larga móvel, que até então ocupava a faixa de 2 GHz e agora avançará também para 1,5 GHz.
Recentemente, a DoCoMo enfrentou uma série problemas com o seu serviço, o que acabou custando uma mordida de 20% na remuneração dos altos executivos, incluindo o presidente, Ryuji Yamada. A operadora vem mantendo um faturamento médio na casa dos US$ 50 bilhões, nos últimos anos. O mercado japonês é disputado com a KDDI, que oferece banda larga móvel pela tecnologia WiMax, concorrente do LTE, e com a Softbank, que levou o iPhone para o Japão e vem colhendo bons resultados.

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