Inadimplência surpreende e volta a subir em maio



A inadimplência do consumidor voltou a subir com força entre abril e maio, sinalizando que a capacidade de consumo das famílias brasileiras continua comprometida. Dois indicadores de entidades privadas mostram que o atraso de pagamentos atingiu, em maio, nível recorde. Ao mesmo tempo, a demanda por crédito voltou a crescer, principalmente entre as camadas de menor renda. Os dois movimentos - atrasos e demanda pro crédito - coincidem com os anúncios de redução de juros por parte dos bancos e os cortes no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em veículos, linha branca, móveis e outros produtos.
"O aumento da procura por financiamento em maio também foi devido ao Dia das Mães. A data responde, ainda, por parte do crescimento da inadimplência, embora o maior reflexo desse crédito vá aparecer lá na frente", diz Carlos Henrique de Almeida, economista da Serasa Experian. Segundo levantamento da instituição, o índice de inadimplência saltou 6,2% entre abril e maio, atingindo o maior patamar da série iniciada em janeiro de 1999. O indicador considera os registros de cheques sem fundos, títulos protestados, dívidas vencidas com bancos, lojas, administradoras de cartões de crédito, financeiras e prestadoras de serviços, como fornecedoras de energia elétrica e água. Nesse conjunto, quem determina a inadimplência é quem registra a dívida, e os dias de atraso podem variar.
Também de abril para maio a demanda por crédito aumentou 14% nos indicadores da Serasa, puxada pelos consumidores de menor poder aquisitivo. Entre os que recebem até R$ 500, a procura por crédito cresceu 16,3% no período, enquanto o avanço na faixa de R$ 500 a R$ 1.000 foi de 15%.
"O consumidor continua com um gargalo no orçamento. Isso está relacionado à inflação e à alta carga tributária, que comeu parte da renda", diz o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas. Para ele, as famílias estão usando o crédito de curto prazo, como cheque especial e cartão de crédito, para financiar o aumento de despesas. "As contas não fecham e o consumidor acaba tomando um crédito caro, que dificulta ainda mais sua situação financeira."
Na região Sudeste, a inadimplência com cheques em maio subiu 10,61%, em relação a abril, e 6,5% se comparada a maio de 2011, de acordo com dados da Telecheque. Do total de cheques devolvidos, 80% deles voltaram por falta de fundos. O uso do cheque especial nos quatro primeiros meses deste ano, segundo o Banco Central, aumentou 10% na comparação com igual período do ano passado. No cartão de crédito, o crescimento foi maior, de 15,6%.
Os dois instrumentos são apontados pelos consumidores ouvidos pela Boa Vista Serviços como as principais fontes de dívidas não pagas - 39,8% dizem estar inadimplentes no cartão e 32,3% em cheques. O descontrole orçamentário é considerado a segunda maior causa de inadimplência entre as famílias brasileiras, ficando atrás somente do desemprego.
Na avaliação do presidente da Boa Vista, Dorival Dourado, o comprometimento de renda com dívidas não deveria ultrapassar 30% da renda, mas desde 2008 esse nível vem sendo superado. O dado mais recente do Banco Central mostra que, em março, o endividamento chegou a 42,95% da renda, o maior patamar da série histórica iniciada em janeiro de 2005. "Como o consumidor compromete a renda muito mais do que o recomendável, quando surge um imprevisto, ele fica inadimplente", diz Dourado.
Entre abril e maio, a quantidade de novos registros de inadimplentes na base de dados da Boa Vista (que inclui informações de bancos, financeiras, prestadoras de serviços e do varejo) cresceu 1,8%, feitos os ajustes sazonais, alcançando o maior nível desde janeiro de 2006, quando o levantamento começou a ser feito. No mesmo período, houve recuo de 1,7% na recuperação de crédito, também descontados os efeitos sazonais.
Os números do BC, embora não apontem recorde de inadimplência, mostram que os atrasos de mais de 90 dias nos pagamentos de empréstimos feitos junto a instituições financeiras subiu para 7,64% em abril, maior percentual desde dezembro de 2009, quando o Brasil sofria os reflexos da crise financeira internacional.

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