Controle sobre dólar abala setor imobiliário argentino



Setor mais dolarizado da economia argentina, o mercado imobiliário no país caminha para a paralisia em razão dos controles cambiais impostos pelo governo, que restringiram o acesso das pessoas físicas a moedas estrangeiras.
As restrições cambiais são apontadas como um dos elementos que justificaram a retração de 5,9% do índice de construção civil em relação a março e de 3,8% em comparação com o mesmo mês do ano passado, anunciada ontem pelo Indec, o instituto oficial de estatísticas.
A "instabilidade de preços" foi o principal fator para a diminuição de negócios no setor privado, segundo entrevistas realizadas pelo Indec. No governo, a queda foi atribuída à redução da atividade econômica. Todo o mercado argentino é referenciado em dólar.
O site Doomos reunia ontem 356 ofertas de imóveis em construção na grande Buenos Aires. Apenas dois anúncios traziam preço em peso. No site Inmo Búsqueda, de imóveis usados, com cerca de quarenta ofertas para cada bairro da cidade, não havia nenhum anúncio em peso.
A queda nas transações imobiliárias em geral na capital foi expressiva. Em abril, de acordo com a associação que reúne os cartórios da cidade, houve uma redução de 17,7% na transferência de titularidade de escrituras.
"Para que aconteça a pesificação, a queda de atividade será muito forte, porque nos últimos anos o mercado registra valorização em dólar. O preço do metro quadrado em dólar a preços constantes hoje é o mais alto dos últimos trinta anos. É difícil estabelecer o referencial em peso, quando se leva em conta a diferença entre o câmbio oficial e o paralelo", disse o economista e consultor José Luis Espert.
Na Argentina, é legal comprar e vender imóveis em dólar. Há dez dias, o governo determinou que o crédito imobiliário no país teria que ser em moeda nacional, um primeiro passo para a pesificação do setor. O uso de financiamento para a aquisição mesmo de imóveis novos é incipiente. De acordo com dados de uma pesquisa do banco BBVA, apenas 7,7% das transações na capital usavam crédito imobiliário.
Até o fim de 2011, as linhas privadas no país em pesos para financiamento imobiliário eram de no máximo 15 anos, com taxa nominal fixa mínima de 22%. Embora os reajustes salariais na Argentina nos últimos três anos tenham ultrapassado estes percentuais, o peso da prestação sobre os vencimentos mensais desestimula a procura desse financiamento.
Dados do ano passado compilados pelo banco mostram que o crédito imobiliário na Argentina, em dólar ou em pesos, não ultrapassava 1,3% do PIB, percentual cerca de quatro vezes menor que o brasileiro.
Para os incorporadores, a pesificação é um processo mais fácil, porque os custos de construção já estão em moeda local. Mas, ainda assim, dados do próprio governo mostram que as permissões de construção em Buenos Aires e outras 41 grandes cidades do país caíram 7,3% em abril, em relação ao mesmo período no ano passado.
A dificuldade maior está no mercado de imóveis usados, onde a praxe é o pagamento à vista e em dólar. Há cerca de US$ 60 bilhões no mercado informal na Argentina. Somados aos recursos enviados ao exterior ou entesourados, o valor chega a US$ 173 bilhões.

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