Caça-gestores


David Einhorn, Bill Ackman e Chase Coleman. Esses nomes fazem parte da lista dos gestores globais mais badalados atualmente, mas são um tanto inacessíveis ao investidor brasileiro. Mas não a todos eles. Poucos sabem, mas existem distribuidores e gestoras especializadas em garimpar fundos de talentos estrangeiros e oferecê-los ao investidores locais.

São nomes reconhecidos mundialmente, mas baseados especialmente em Nova York e arredores, Califórnia e Londres. Os fundos mais procurados são 'hedge funds' - carteiras que podem incorporar qualquer ativo e estratégia e, portanto, têm pouca correlação com os fundos mais tradicionais. "Não faz muito sentido ir para o exterior para aplicar em dívida pública e no mercado de ações, já que as correlações entre os países hoje são altas", diz Leonardo Camozzato, sócio da distribuidora Itajubá Investimentos, que faz o meio campo entre investidores locais e fundos estrangeiros.
O contato, por sua vez, é a alma do negócio. É que a expertise dos profissionais que fazem essa ponte com o exterior vem justamente do conhecimento dos gestores badalados. Assim, muitas viagens por ano são cruciais para entender a indústria. Para Arthur Mizne, sócio da M Square e um dos gestores locais que se dedica a uma carteira de fundos estrangeiros, a primeira pergunta que o investidor deve fazer é se ele quer ter parte de seus recursos fora do país.
A segunda é se está preparado para correr mais riscos, ou se, na verdade, não prefere ganhar o quanto der, voltando-se para aquilo que conhece: o CDI. Caso a adição de risco à carteira esteja sendo considerada, surge nova questão: por que tomar risco lá fora e não aqui mesmo? "Lá fora, há anos os gestores contam com estratégias de investimento que permitem gerar retornos que não dependam da taxa de juros. Aqui, o gestor de multimercado ainda vai ter que aprender a gerar retornos sem a muleta dos juros", diz Mizne.
É consenso, porém, que só faz sentido que o investidor se volte ao exterior se for para buscar uma estratégia não disponível no mercado brasileiro. Ou, então, por diversificação. E sempre pensando em prazos mais longos. "Por mais que as perspectivas lá fora não sejam boas, o investidor precisa entender que o cenário pode se inverter em algum momento, nada é para sempre", diz Camozzato, da Itajubá. "Temos sérios problemas de infraestrutura que prejudicam o crescimento no curto prazo e justificam pensar em alternativas fora do Brasil", complementa José Eduardo Martins, sócio da empresa de gestão de fortunas GPS.
No caso da GPS, a ponte com os fundos estrangeiros é feita a partir da alocação de recursos de brasileiros por meio de empresas que os investidores têm lá fora ou contas abertas no exterior. "Não oferecemos um fundo. Alocamos o dinheiro de nossos clientes lá fora e para isso temos uma área com cerca de vinte profissionais só fazendo pesquisa", diz Martins. Entre os fundos mais bem avaliados, o executivo destaca a família de renda fixa da Pimco e o Greenlight, 'hedge fund' com patrimônio de quase US$ 8 bilhões comandado pelo americano David Einhorn.
Segundo os gestores locais, family offices, áreas de 'private bank' de grandes bancos e fundos de pensão começam a mostrar interesse mais firme pela possibilidade de alocar parte de seus recursos fora. Na GPS, boa parte das 400 famílias atendidas tem entre 15% e 20% dos recursos disponíveis para aplicação no exterior. "E isso pode aumentar", diz Martins. "O importante é o timing' correto", emenda.
Family offices e áreas de 'private bank' de grandes bancos começam a mostrar interesse mais firme em aplicar lá fora
Esse tipo de investimento pode ser feito em reais, por meio de um fundo multimercado local, registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que investe 100% de seus ativos em outros fundos no exterior. Ou a partir da abertura de uma conta lá fora, em dólares, que podem ser transferidos para um fundo offshore de estratégia semelhante. Nesse caso, no entanto, além de avisar o Banco Central (BC) e a Receita Federal, é importante lembrar que, caso tenha problemas, o investidor só poderá recorrer às autoridades regulatórias do país em que está sediado o fundo.
Os produtos não são para qualquer um. Se o fundo for local, é preciso que o interessado tenha ao menos R$ 1 milhão disponíveis para aplicação, segundo as exigências do regulador. Para investir diretamente lá fora, o investidor precisa ter recursos suficientes, a ponto de fazer sentido enfrentar a burocracia de abrir uma conta em uma moeda diferente da sua em outro país. "O processo é limitador, mas faz parte da curva de aprendizado e esses limites podem ser flexibilizados", diz Camozzato.
A M Square desde 2005 alcança esses grandes gestores por meio de um fundo offshore, o M Square Fund, com patrimônio por volta de US$ 200 milhões e cerca de vinte 'hedge funds' na carteira. O fundo, no entanto, não é distribuído no Brasil. É preciso que o investidor tenha conta em um país estrangeiro para aplicar no fundo com sede em Cayman. "Já pensamos em ter um veículo local, mas agora a demanda ainda não justifica", diz Mizne.
Segundo Mizne, o foco da carteira são estratégias simples, que não frequentam nem os piores nem os melhores rankings. Entre os seus preferidos, estão o Farallon e o Viking. O primeiro é um fundo de retorno absoluto sediado na Califórnia, que investe globalmente em crédito e em ações, e no qual Mizne aplica há quinze anos. Além do Viking, um fundo "long and short" lançado no fim dos anos 90 como um dos filhotes do famoso fundo 'Tiger'.
Mizne começou a pinçar fundos de gestores de sucesso em Nova York em um escritório de investimentos, em 1997. "A indústria era muito diferente. Descobriam-se fundos não em banco de dados, mas por meio de conversas e de 'networking' [rede de contatos]".
Seguindo o método de conferir 'in loco' as estratégias de gestão, Mizne conta que chegou a visitar mais de 200 fundos em 1997. "E o curioso é que eu achei que conhecia todo mundo, mas sempre apareciam mais e mais". Segundo Mizne, ele e seu outro sócio viajam cerca de vinte semanas por ano, especialmente para Nova York, Londres e Ásia.
A Itajubá também distribui um fundo que investe em fundos de estrangeiros em parceria com uma gestora londrina, a Financial Risk Management. A diferença é que o fundo é local e, portanto, recebe aportes em reais.
Formada em 2007 por ex-executivos do Grupo Icatu justamente com o objetivo de oferecer produtos diferenciados, a empresa distribui desde novembro do ano passado o FRM Global Hedge - voltado para family offices, gestores locais de fundos oferecidos no segmento 'private' de grandes instituições e fundos de pensão.
Camozzato conta que o primeiro investidor veio em janeiro de 2012, com um aporte de R$ 7 milhões. Mas enxerga boas oportunidades para o produto. Segundo ele, desde 2009 os fundos de pensão podem investir até 10% no exterior, mas - ancorados nos juros nas alturas - nunca sentiram necessidade deste tipo de diversificação.
"Agora já há demanda por informação nesse sentido e acredito que em até cinco anos as fundações podem sair do zero e alcançar mais ou menos 3% da carteira. Menos do que isso não faria sentido, seria muita burocracia para pouca diversificação", diz.

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