Brasil perde importância na siderurgia internacional



Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Mendes de Paula, especialista da Universidade Federal de Uberlândia: "A competitividade da siderurgia brasileira piorou significativamente a partir de 2005"
O novo eixo da produção de aço no mundo será a Ásia. Os Estados Unidos e a Europa deixaram de ser protagonistas nesse setor e o Brasil, devido ao impacto crescente de sua matriz de custos, perdeu a competitividade para ser um grande "player" global. Essa é a avaliação de Germano Mendes de Paula, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia. Com mestrado e dourotado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutorado pela Oxford University, Mendes é um dos maiores especialistas sobre a indústria do aço no país.
"A competitividade da siderurgia brasileira piorou significativamente a partir de 2005, o que é evidentemente influenciado pela taxa cambial, além de elevação dos preços das matérias-primas, redução das vantagens logísticas de antes, como proximidade das minas de ferro, elevação dos custos de energia e aumento dos custos de investimento", afirma. Para ele, o setor, no país, com isso, deve se voltar principalmente para atender ao mercado doméstico
A indústria no mundo, ressalta Mendes, enfrenta um momento de baixa rentabilidade, excesso de capacidade de produção e aumento da crescente importância das exportações indiretas (que afetam os clientes das siderúrgicas) e aumento dos custos das matérias-primas e insumos, como energia. Abaixo, os principais trechos da entrevista ao Valor.
Valor: O que mudou na siderurgia mundial desde a crise 2008 e qual o impacto da crise na zona do euro e a desaceleração da China?
Germano Mendes de Paula: A siderurgia chinesa sentiu relativamente pouco os impactos da crise de 2008/2009, em grande medida em função do pacote de investimentos governamentais, que sustentou a demanda por aço. Por outro lado, o desempenho financeiro das siderúrgicas é muito ruim e as empresas continuam anunciando investimentos, o que somente é factível pelo fato de serem companhias estatais. No resto mundo, o setor ainda não conseguiu retomar à situação pré-crise, principalmente no que tange à margem de lucro, regredida por aumento dos custos dos insumos, excesso de capacidade instalada e de exportações indiretas.
Valor: Fala-se muito no excesso de oferta, mas porque as empresas resistem a fazer cortes de produção para se ajustarem?
Mendes: Na verdade, fizeram alguns cortes de produção, incluindo aqui no Brasil, por meio do fechamento de altos-fornos. O problema principal é que a siderurgia é uma atividade com elevadas barreiras à entrada e também à saída. A redução do nível de atividade é muito onerosa, pois acarreta aumento do custo fixo unitário. Além disso, algumas usinas que se assemelham à fênix, pois parecem que vão fechar, mas ai aparece um comprador que tenta reestruturar e reabre a usina. Teesside (no Reino Unido) e Sparrows Point (nos Estados Unidos) são exemplos.
Valor: Que mudanças estruturais você vê para o setor na Europa, que enfrenta uma grande crise financeira em vários países?
Mendes: Mesmo sem uma deterioração adicional da situação macroeconômica na Europa, o desempenho da siderurgia da região não é bom. A bem da verdade, tendo em vista o elevado grau de instabilidade, que afeta negativamente os investimentos e estes, por sua vez, a demanda do aço, é até surpreendente que a queda do consumo de aço não tenha sido ainda pior. Todavia, a queda da importância relativa da siderurgia europeia é uma tendência sem volta. O que se pode discutir é o ritmo dessa trajetória. Vale lembrar que nos países da península balcânica, que são europeus, mas não fazem parte da Eurozona, a situação da siderurgia é dramática, tanto que a US Steel devolveu a usina Smederevo ao governo da Sérvia sem qualquer compensação financeira.
Valor: E a siderurgia americana?
Mendes: O índice de ociosidade da siderurgia dos EUA em 2012 tem oscilado ao redor de 20%, o que não é muito diferente da média mundial. Apesar da concordata recente da RG Steel, o cenário não é tão pessimista. Aliás, vemos uma situação bem melhor do que a verificada no período 2001/2002. No caso específico de aços longos especiais (que é muito dependente da automobilística), verifica-se novos projetos para ampliação da capacidade instalada. A possibilidade de utilização de gás de xisto poderá melhorar substancialmente a competitividade do setor lá.
Valor: E como fica no Japão?
Mendes: Acredito que a situação é mais desfavorável do que a norte-americana, pois é grande exportadora líquida de produtos siderúrgicos. Portanto, a construção de novas usinas em países asiáticos impacta negativamente tais as exportações. No mercado interno, a demanda de aço para a construção também não vai bem. Além disso, a fusão entre Nippon Steel e Sumitomo Metals sugere que a necessidade de reestruturação produtiva com a finalidade de redução de custos é o objetivo principal das siderúrgicas japonesas. Isso é compreensível diante de um mercado estagnado e certa timidez na internacionalização.
Valor: Que papel a China terá, considerando que tem excesso de capacidade e está com sua economia em desaceleração?
Mendes: A siderurgia chinesa enfrenta vários desafios: o governo estimula a consolidação, mas os efeitos práticos até agora são relativamente pequenos; o desempenho energético e ambiental, com algumas exceções, é muito insatisfatório e as margens de lucro são muito pequenas. O governo chinês reconheceu a necessidade de reestruturação desta indústria no 12º Plano Quinquenal, divulgado no ano passado. O problema é que o mesmo documento governamental menciona claramente que o objetivo é a exportação de produtos intensivos em aço, o que evidentemente é um risco para as cadeias metal-mecânicas de vários países, inclusive os latino-americanos.
Valor: Que cenário você projeta para a Índia?
Mendes: A minha percepção é que as siderúrgicas indianas anunciam projetos com muita facilidade, algumas chegam falar em quadruplicação da capacidade em uma década. Não restam motivos para projeções otimistas, seja pelo baixo nível de urbanização, seja pelo reduzido consumo per capita. Entretanto, a capacidade de realização não segue na mesma velocidade em função de problemas macroeconômicos e da dificuldade em obtenção das terras para construir as usinas.
Valor: Como ficará o Brasil, que alguns anos atrás era visto como o grande supridor futuro de aço semi-acabado para o mundo?
Mendes: A competitividade de custos da siderurgia brasileira piorou significativamente a partir de 2005, o que é evidentemente influenciado pela taxa cambial. Além disso, outras questões de cunho setorial também foram determinantes para esta situação: elevação dos preços dos insumos, comprimindo a importância relativa dos salários; queda do preço do frete, reduzindo as vantagens logísticas decorrente da proximidade com as minas de ferro; elevação dos custos da eletricidade, afetando as usinas semi-integradas (à base de sucata) e aumento do custo de investimento (custo/tonelada). Nesse contexto, superávits estruturais da siderurgia brasileira estão em xeque, devendo se voltar a atender principalmente ao mercado doméstico.
Valor: Qual o novo desenho geográfico que você traça para a siderurgia no mundo?
Mendes: Ele tem apenas uma direção: Ásia. A importância dos países do Atlântico está regredindo e não existem motivos para acreditar que tal tendência não persistirá. O Brasil, em função do que foi discutido na questão anterior, tenderá a ter uma siderurgia cada vez mais voltada ao atendimento do mercado nacional. O país deve tentar evitar o que está acontecendo com a siderurgia australiana no momento: enquanto as mineradoras de ferro ampliam seus investimentos, as siderúrgicas reduzem capacidade instalada. Em 2000, a produção australiana de minério de ferro foi 24 vezes superior à de aço bruto. Em 2010, este valor já foi de 58 vezes. Para 2015, ele tende a alcançar 139 vezes. Assim, enquanto a mineração de ferro no país expande exponencialmente, a siderurgia - que estava estagnada - caminha para o declínio.
Valor: A verticalização das usinas de aço, investindo em minério de ferro e carvão, vai se manter e até ganhar mais velocidade?
Mendes: Embora seja uma estratégia cada vez mais disseminada, em vários países (principalmente na Rússia, Índia e América Latina), com certeza não é possível de ser adotada por todas as usinas, seja porque o mercado de minério já é bastante consolidado nas Big 3 [ Vale, Rio Tinto e BHP Billiton ], seja porque as opções logísticas podem não ser as ideais. A participação das minas de ferro controladas por siderúrgicas no total mundial de ferro em 2010 foi estimada em 23%, o que dá uma noção de que a estratégia de verticalização, embora muito importante em termos de resultados financeiros, não é tão difundida como se apregoa.
Valor: A consolidação de ativos no setor pós-crise caiu drasticamente, a não ser algumas operações na China. Você vê uma nova onda?
Mendes: De fato, os valores das transações patrimoniais regrediram muito a partir de 2009, embora o número de operações (fusões, aquisições, cisões e joint-ventures) continue superado 150 por ano. Em outras palavras, as megatransações perderam seu ímpeto, mas o processo de consolidação na siderurgia mundial não acabou. Em termos regionais, a indústria asiática, em particular nos países emergentes, ainda está atrasada neste processo de consolidação. Na China, este processo é estimulado pelo governo, mas empresas estrangeiras são proibidas de comprarem usinas siderúrgicas relevantes.
Valor: O você vai abordar em seu novo livro sobre a siderurgia, que será lançado na próxima semana no Congresso anual do setor?
Mendes O "Latin America Steel: a retrospective in 101 essays" é uma coletânea de artigos publicados na revista britânica "Steel Times International" entre 2000 e 2011. Durante estes doze anos, a intenção foi apresentar uma visão contemporânea da indústria siderúrgica latino-americana - o intenso processo de fusões e aquisições, internacionalização produtiva, alianças estratégicas e o retorno da importância da integração vertical, entre outros temas. A partir de agosto, vou realizar um pós-doutorado na Columbia University, EUA. Daí, pretendo escrever um livro discutindo a interação entre as medidas de política industrial e as estratégias das companhias siderúrgicas, em seis regiões-países selecionados: Estados Unidos, União Europeia, Japão, China, Índia e Brasil. Quero avançar num terreno ainda pouco explorado, da mesma forma que fiz em 1998-99, quando realizei pós-doutorado na Oxford University e escrevi uma obra sobre as estratégias de internacionalização de siderúrgicas.

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