Banco de investimento cresce e faz 'puxadinho'


Quem anda apressado pela avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, talvez nem repare na casinha de taipa do século 18 que sobreviveu à invasão dos arranha-céus na região. Mas ali está ela, discreta, no vão de um edifício envidraçado de 19 andares que acaba de ser construído. É para lá que vai se mudar, nos próximos meses, o BTG Pactual.

Do outro lado da avenida, estão em curso as obras do prédio que vai abrigar a futura sede de um de seus maiores concorrentes, o Itaú BBA. A poucas quadras dali, uma torre de linhas inclinadas e formato que lembra o de um barco vai receber o Goldman Sachs e o Credit Suisse até o fim deste ano.
A onda de mudanças está longe de ser apenas física. Reflete, acima de tudo, a expansão que os bancos de investimentos têm experimentado no Brasil desde a retomada do mercado de capitais. Também contempla as boas perspectivas que essas instituições vislumbram para o país nos próximos anos, a despeito dos sinais ruins de curto prazo.
"O crescimento do Brasil vai passar necessariamente pelo mercado de capitais, pela consolidação de setores, pelas atividades de banco de investimentos. Por isso é que a gente vem investindo", afirma Fernando Iunes, diretor-executivo de banco de investimentos do Itaú BBA. "É natural que isso aconteça."
A receita dos bancos de investimentos no país praticamente triplicou em uma década. Subiu de US$ 348 milhões, em 2000, para US$ 916 milhões em 2011, um ano que não foi dos melhores (ver gráfico ao lado). A participação do Brasil na receita mundial do setor continua pequena se comparada à de outros países, mas subiu de 0,63% para 1,31% no mesmo período, segundo dados da empresa britânica Dealogic.
A percepção dos banqueiros é que esse processo está apenas começando e vai se acentuar com a trajetória de queda das taxas de juros, que tende a movimentar o mercado de capitais e mudar o perfil da poupança.
"O 'hub' dos bancos ficava em Nova York, mas com o crescimento do mercado brasileiro ele teve de ser trazido para cá", observa o presidente do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, Alexandre Bettamio.
O BofA não vai mudar de endereço, mas teve de alugar 3 mil metros quadrados adicionais, no mesmo prédio que já ocupa na Faria Lima, para acomodar melhor todos os funcionários. A equipe do banco cresceu 60% em dois anos e soma, agora, 450 pessoas, diz Bettamio.
Em paralelo ao aumento das atividades de assessoria financeira, os bancos montaram ou reforçaram áreas correlatas, como private banking, gestão de recursos e corretora. Com isso, os escritórios antigos ficaram apertados para acolher o crescimento das equipes.
É o caso do Credit Suisse. Quando comprou o Garantia, em 1998, o banco ficou com quatro andares do edifício que ocupa atualmente, na Faria Lima. Um deles se manteve desocupado até 2005. Hoje, todos estão lotados e a corretora Hedging-Griffo, adquirida pelo Credit Suisse em 2006, está em outro edifício. A mudança para um novo endereço, prevista para o segundo semestre, vai reunir toda a equipe - formada por cerca de 800 pessoas - num só local e deixará espaços livres para expansão.
O caso do Credit Suisse é emblemático de como os bancos de investimentos foram se organizando à medida que o mercado se tornou mais relevante. A instituição cresceu no país com a volta das ofertas de ações na bolsa a partir de 2004, aumentou sua estrutura e, com a Hedging-Griffo, diversificou seu portfólio de serviços.
Hoje, a subsidiária brasileira tem papel crucial para o banco suíço. "É nossa maior operação nos países emergentes", diz o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira.
O país também tornou-se peça importante para o americano Goldman Sachs. "Existe uma estratégia global de crescimento em mercados emergentes e o Brasil está no topo dessa lista, junto com a China", afirma o presidente da subsidiária local, Alejandro Vollbrechthausen.
Até 2007, o Goldman tinha apenas uma representação comercial. Foi naquele ano, no auge da euforia com as ofertas de ações, que o banco montou uma operação no país. Desde então, o número de funcionários subiu de 50 para 300 pessoas. Segundo Vollbrechthausen, essa base pode "facilmente" dobrar nos próximos anos se os prognósticos do banco para o Brasil estiverem corretos.
Países emergentes cresceram aos olhos dos bancos desde a crise financeira deflagrada pela quebra do Lehman Brothers em 2008, embora a reação inicial de algumas casas tenha sido de pé no freio.
Foi o que aconteceu com o UBS. No afã de fazer dinheiro rápido para melhorar sua liquidez, o banco suíço saiu às pressas do Brasil em 2009, quando vendeu o Pactual ao BTG. "Poucos meses depois, já pensávamos em voltar", diz o atual presidente do UBS no país, Lywall Salles.
O retorno começou a ser arquitetado no ano seguinte, quando o banco suíço anunciou a compra da corretora Link. O negócio só será concretizado quando o Banco Central conceder a licença para o UBS voltar a atuar como banco.
Para se preparar, o UBS fez contratações e investiu R$ 58 milhões em sua nova sede - um prédio recém-construído na Faria Lima. No local, mesas e computadores estão vazios à espera da Link, que vai acrescentar 220 pessoas à equipe de 150 funcionários do banco.
No entanto, o mercado que o UBS vai encontrar é bem diferente daquele que o banco deixou - em que ele e o Credit Suisse dominavam os contratos para coordenar ofertas de ações.
Desde a eclosão da crise, quem passou a dar as cartas foram os bancos de investimentos brasileiros, impulsionados pelo relacionamento mais estreito com as companhias locais e pela capacidade de usar capital próprio para financiar as operações.
"Os bancos brasileiros estão com balanços mais fortes que os estrangeiros e, nesse mercado, empenhar capital em prol do cliente vai ser um diferencial importante", afirma Guilherme Paes, sócio do BTG Pactual. Em abril, o banco captou R$ 3,6 bilhões em sua oferta inicial de ações, dos quais 80% foram para o caixa.
No ano passado, o Itaú BBA e o BTG Pactual foram os bancos de investimentos que mais geraram receita no Brasil, de acordo com o ranking da Dealogic. Em 2012, até agora, os dois bancos e o Bradesco BBI ocupam as três primeiras posições.
Segundo Paes, a equipe de banco de investimentos do BTG tem crescido de 15% a 20% ao ano. Ele não revela qual o tamanho do time. O BTG como um todo tem cerca de 1,3 mil funcionários. "As empresas brasileiras estão mais sofisticadas e fazem operações mais sofisticadas. Por isso o mercado cresce", diz.

.

.