Agenda de negócios



Enquanto os holofotes da Rio+20 se voltam para os chefes de Estado, o setor privado vive a expectativa da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável como parte do problema e - ao mesmo tempo - das possíveis soluções para o desafio do crescimento sustentável e da preservação ambiental, com diferentes propostas de contribuição e também com demandas.
No Brasil, segundo levantamento da consultoria Deloitte com 108 gestores de empresas de todos os portes e setores e faturamento correspondente a 17% do PIB do país, o setor privado está dividido em relação aos resultados da conferência: 45% dos empresários acreditam que a Rio+20 servirá para acelerar as discussões ambientais, outros 45% apostam que não haverá mudanças significativas. São expectativas semelhantes às de 141 CEOs de todo o mundo ouvidos pela PricewaterhouseCoopers: 50% deles esperam algum progresso nas questões que estão em pauta na Rio+20 e os outros 50% acham que haverá apenas pequeno ou nenhum avanço.
Um dos desafios da Rio+20, portanto, é ajudar a romper o ceticismo de parte da comunidade empresarial e engajá-la na causa ambiental. Para a coordenadora-executiva da Rio+20, Henrietta Elisabeth Thompson, a presença de mais de 6 mil empresários e líderes de associações de empresas privadas no evento é significativa. Segundo ela, parte da tarefa da conferência é provar aos líderes empresariais que sustentabilidade não significa ineficiência ou perda de competitividade.
Como fazer isso? "Apresentando casos de sucesso na economia verde, enquanto os governantes trabalham na criação de um marco institucional favorável à sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a consciência do consumidor em relação aos temas ambientais aumenta e ele passa a cobrar das empresas uma atuação mais responsável do ponto de vista sócio-ambiental", enumera Thompson.
Segundo Heloísa Monte, diretora de marketing da Deloitte, tudo indica que o empresariado brasileiro está cada vez mais inclinado a adotar práticas sustentáveis. "Ao todo, 85% das empresas pesquisadas afirmaram adotar alguma prática de sustentabilidade e 27% já incorporaram fatores de sustentabilidade em sua política de remuneração de executivos."
Carlos Rossin, diretor da consultoria PWC Brasil e especialista em sustentabilidade, chama a atenção para a importância da mídia no engajamento da sociedade em relação à causa verde. Em uma pesquisa realizada com CEOs pela PWC, 97% dos líderes empresariais brasileiros apontaram que os meios de comunicação terão influência significativa ou relativa no resultado da Rio+20. "A mídia terá um papel importante como catalisadora dessa mudança."
Empresas mobilizam-se para apresentar suas ideias de como fazer a transição para a economia verde. Por Carlos Vasconcellos, para o Valor, do Rio
Iniciativas como o Global Compact, da ONU, que tenta estabelecer metas de autorregulação para o setor privado são vistas como positivas, ainda que nem sempre tenham resultados práticos imediatos. No entanto, é preciso criar os estímulos certos para que o processo de transição para a economia verde avance. Keisha Garcia, presidente da Cropper Foundation, de Trinidad & Tobago, e uma das autoras do capítulo sobre a América Latina e o Caribe do relatório ambiental global da ONU Geo 5, destaca a necessidade de se criar metas ambientais mais tangíveis e mensuráveis. Sem isso, fica mais difícil aumentar o engajamento do setor privado, que ela considera fundamental para uma economia sustentável.
Para Clarissa Lins, diretora da da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), que reúne empresas brasileiras envolvidas na construção da economia verde, a agenda da integração ambiental não pode ser apartada da agenda da eficiência. "Precisamos desmistificar o conceito de sustentabilidade. Estamos falando em conciliar boa gestão de negócios com gestão responsável dos recursos naturais. Quem fizer isso vai ter retorno mais rápido do fluxo de caixa."
No entanto, observa Clarissa, é necessário lembrar o óbvio: o setor privado não é uniforme e não se move sempre na mesma direção ou velocidade. "O importante é que todos avancem, mas para isso precisamos de regras ambientais que não criem desigualdade ou distorções competitivas entre empresas, setores ou países", diz.
Sérgio Margulis, assessor especial do Ministério do Meio Ambiente, acredita que o papel regulador do Estado será decisivo. "O mercado não vai se regular sozinho, infelizmente o processo de adaptação do setor privado à economia verde é mais lento do que se poderia esperar", diz. Para ele, apesar das iniciativas isoladas de algumas empresas e setores, a grande transformação virá da tomada de decisões de políticas públicas nos grandes países.

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