A rota da Azul Trip para crescer – sem trombar com a TAM e a GOL


Na visão de analistas, fusão entre Azul e Trip não ameaça o negócio da GOL ou TAM, maiores empresas de transporte aéreo no Brasil

  


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Avião da Azul
Azul: fusão com a Trip reforçará estratégia de crescimento nas cidades médias
São Paulo - As companhias aéreas Azul e Trip anunciaram hoje a fusão de suas atividades, com a criação de uma nova holding controladora, a Azul Trip S.A. A empresa nasce como a terceira maior do setor, com 14,2% do mercado doméstico, 112 aeronaves, 837 voos diários e 96 cidades atendidas.
Com a transação, a Trip deterá um terço da nova holding, ao passo que a Azul ficará com os dois terços restantes. O negócio não envolverá aporte em dinheiro. Até a aprovação das autoridades reguladoras, no entanto, as companhias manterão operações independentes. Apenas depois do sinal verde as rotas passarão a ser compartilhadas, com a provável escolha de apenas uma das marcas para representar a holding.
“Não faz muito sentido gastar verbas dobradas de propaganda. No futuro vamos promover uma convergência, mas temos que ter respeito pelo processo de autorização”, afirmou José Mario Caprioli, presidente da Trip, em coletiva de imprensa realizada nesta segunda. À frente de um “comitê de integração”, o executivo reforçou que todos os possíveis ganhos com a integração serão estudados nesse meio tempo, envolvendo desde o modelo de lanche a ser ofertado aos novos uniformes da tripulação. Os 8.700 funcionários das duas companhias deverão ser mantidos.
Segundo Richard Lucht, especialista em aviação e diretor-geral da ESPM-Sul, a união não deverá impactar os negócios da TAM e Gol, ao menos no curto prazo. “Ao contrário dessas companhias, Azul e Trip não operam com linhas de alta densidade”, explica. A tendência, portanto, é que a nova empresa continue ganhando mercado em cidades médias, apoiando sua expansão neste nicho.
Longe dos centros
David Neeleman, presidente do conselho da Azul e da nova holding, reforçou que a aposta não será nos grandes centros. “Uberlândia, em Minas, tem 1.200 pessoas embarcando por dia. Temos outras cidades com mesmo tamanho e PIB em que 50 pessoas viajam diariamente. Então sabemos que o crescimento nesses lugares é muito mais rápido do que em mercados maduros”, disse. 
O objetivo é consoante com a evolução da Azul no Brasil, assentado sobretudo na consolidação do hub em Campinas, em São Paulo. “Não queríamos roubar um cliente das companhias aqui estabelecidas quando a Azul foi fundada, em 2008. Na época, TAM e GOL detinham 95% do mercado”, disse Pedro Janot, presidente da empresa. “E assim foi feita a história de Viracopos. Junto com os hubs regionais da Trip, queremos aumentar nossa capilaridade e chegar mais longe.” Hoje, a Trip concentra voos em cidades como Belo Horizonte (MG) e Cuiabá (MT).
Até agora, a estratégia vem surtindo efeito. Ao mesmo tempo que TAM e GOL viram sua hegemônica participação cair de 80,9% para 74,7% de abril do ano passado para cá, Azul e Trip cresceram 41% no mesmo período. Daqui para frente, a nova holding contará com alguns atributos a seu favor para seguir no mesmo caminho, entre eles a frota de aeronaves padronizada. As duas empresas operam com jatos Embraer e turboélices ATR. Além disso, a sobreposição entre as malhas é de apenas 15%, diminuindo a necessidade de grandes investimentos para integrá-las adequadamente.
“O movimento faz muito sentido em termos de sinergia operacional”, afirmou o analista de um banco de investimento que preferiu não se identificar. “Agora, a Azul também ganha força para reduzir custos com escala e ser menos afetada com a alta do combustível.”
Antigos e novos parceiros
Segundo o presidente do conselho da holding, David Neeleman, a fusão jogou para frente os planos da Azul de estrear na bolsa de valores. "Um dia teremos que abrir capital, mas hoje temos caixa suficiente para as duas empresas - nossos acionistas têm bolsos fundos para nos ajudar", afirmou.
Entre os fundos com participação na Azul estão o Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, e o americano Texas Pacific Group. A Trip, por sua vez, recomprou na semana passada os 26% da empresa que pertenciam à companhia americana Skywest Airlines. A empresa, que passou a compartilhar voos com a TAM desde 2004, manterá a parceria ativa até seu término. “Em princípio vamos honrar todos os nossos contratos", reforçou José Mario Caprioli. Procurada, a TAM também afirmou que, por ora, o chamado “code share” não será alterado.
A Trip chegou a negociar 31% de seu capital para a TAM, mas o acordo de exclusividade para a operação expirou em janeiro deste ano. A partir daí, começaram as conversas com a Azul. Para chegar ao desenho final da fusão, as companhias contaram com a assessoria do Itaú BBA, pelo lado da Azul, e do Credit Suisse, pela Trip.
Embora afaste o objetivo de brigar por cada ponto percentual do mercado – para Neeleman, “tem gente que foca em market share e perde muito dinheiro” – a Azul Trip S.A. já enxerga um céu de brigadeiro no seu horizonte, mesmo que o setor esteja lá vivendo seus dias de tormenta. Em 2012, a holding estima faturar cerca de 4,2 bilhões de reais, além de colocar, no mínimo, outras oito aeronaves no portfólio. 

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