Juro menor escancara entraves



O spread bancário ganhou os holofotes nas últimas semanas de muita discussão e muita ação dos bancos oficiais nessa seara. Mas a perspectiva de a economia brasileira rodar com juros em novas mínimas históricas traz à discussão heranças de décadas de hiperinflação – ou quase – instalada no país.  O governo sabe da relevância desse momento. E o presidente do Banco Central (BC) disparou a senha. Tomada a decisão de mudar a caderneta, “o Brasil dá um passo fundamental na direção de remover resquícios herdados do período de inflação alta”, afirmou Alexandre Tombini em nota divulgada após o anúncio da “nova” poupança pelo ministro da Fazenda.
Carga tributária pesada, depósitos compulsórios gigantescos e juro para financiar investimentos de longo prazo (TJLP) atrelado a um fundo híbrido que atende a uma despesa fiscal típica de seguro-desemprego – representado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – não chegaram ao debate por um critério de urgência. Mas deverão ser considerados no futuro.
“São questões com apelo diferente da caderneta de poupança que exige do governo um olhar para o poupador”, comenta Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional. Em entrevista ao blog Casa das Caldeiras, Kawall, economista-chefe do J.Safra, lembra que a questão do spread bancário por exemplo foi ofuscada nos últimos anos pelo crescimento espetacular do crédito – que, em uma década, dobrou e hoje ronda 50% do PIB.
O economista explica que a queda da Selic, desde agosto do ano passado, praticamente escancarou o fato de os juros cobrados nos empréstimos não acompanharem o ritmo de queda da taxa básica. E isso tem tudo a ver com as famílias, uma vez que para as empresas existe a figura do BNDES. “Tributação alta, compulsórios bancários e mesmo a TJLP devem voltar à agenda que deverá contemplar também aperfeiçoamentos institucionais, especialmente voltados para garantias das operações”, afirma Kawall.
A TJLP é um capítulo à parte na estrutura de taxas de juros. Há cerca de três anos no piso de 6%, a taxa de referência nas operações do BNDES pode se mostrar elevada num contexto de juro básico em novas mínimas históricas. E essa percepção, se confirmada, é um incentivo para levantar dinheiro no mercado de capitais ou com a venda de títulos de renda fixa – alternativas de financiamento corriqueiras no mercado internacional e que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, acabará por adotar.

.

.