Comprar na baixa: na prática, a teoria é outra?


Compre as ações na baixa e venda na alta. Todo mundo já escutou essa recomendação dos especialistas. Mas boa parte desses parece adotar o lema: “faça o que digo, mas não o que faço”. E agora? Em maio, até dia 18, o Ibovespa recuou 11,8%, maior queda desde outubro de 2008, ápice da crise financeira, quando o mercado despencou 24,8%. É hora de comprar ações?

A análise fundamentalista possui duas abordagens: a “top-down”, na qual os analistas analisam a conjuntura macroeconômica para posterior escolha das ações das companhias que se beneficiarão desse cenário e a “bottom-up”, em que a seleção das companhias ocorre independentemente do cenário macroeconômico. Em momentos de crise, nenhuma das duas abordagens funciona. A situação macroeconômica domina e os fundamentos das companhias são pouco observados, porque as projeções dos resultados se tornam mais incertas. Logo, ações de “A a Z” caem indiscriminadamente.
É o que acontece no momento. Há uma grande incerteza sobre o futuro da zona do euro. Nas eleições gregas, os partidos defensores dos acordos com o Banco Central Europeu não conseguiram atingir uma maioria. Logo nova eleição deve ser marcada, o que aumentou a incerteza sobre o futuro da Grécia e os desdobramentos de sua saída da zona do euro sobre as demais economias periféricas.
O sistema financeiro (inclusive o mercado acionário) não é neutro diante de crises. Pelo contrário, ele amplifica os efeitos do choque econômico, de acordo com Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, citado por Cristiano Romero em sua coluna.
Nesses momentos em que o desespero impera é bom relembrar algumas dicas de investimento.
Modas e o convívio social influenciam a decisão do investidor. O ser humano tem dificuldade de se posicionar contra uma tendência ou um pensamento disseminado. Não devido à pressão social, mas ao sentimento de que um expressivo grupo de pessoas pode não estar agindo de forma equivocada. A venda maciça de ações na crise é um bom exemplo. Esta atitude é conhecida como “efeito manada”.
Desconfie sempre da unanimidade. Nelson Rodrigues já dizia: “toda unanimidade é burra”. É bom se acautelar quando o mercado começa a ter uma crença dominante sobre algum evento.  Em momentos de pessimismo, os investidores se afastam do mercado acionário. Por outro lado, uma notícia positiva pode modificar as perspectivas do mercado e trazer os investidores de novo para a bolsa, elevando o preço dos ativos.
O entusiasmo e o medo não são bons conselheiros de investimento. O otimismo aumenta a autoestima (e, porque não dizer, a arrogância), que reduz a diligência na escolha dos ativos. Já o medo alimenta a aversão ao risco, que pode afastar o aplicador de bons investimentos. E em momentos de crise as manchetes ficam mais pesadas. Veja a edição do Valor de 18/05. Caso se queira abraçar o pessimismo há um elenco enorme de artigos. Pode-se escolher o de Martin Wolf :“Saída da Grécia traria grandes riscos para o futuro do euro”. Ou a reportagem do Wall Street Journal traduzida pelo Valor: “Calote grego afetaria dívida com países”. Ou ainda: “Suspeita de saques no Bankia abala bancos”. Entre tantas notícias negativas, uma, solitária, traz um sopro de esperança: “Pesquisa prevê governo pró-EU”, na qual uma pesquisa indica a possibilidade de partidos favoráveis ao plano de recuperação obterem maioria na eleição grega de 17 de junho.
O investidor deve distribuir sua poupança em três categorias: (i) reserva de curto prazo, (ii) aquisição de bens duráveis, imóveis ou viagens e (iii) a parcela destinada a aposentadoria. A primeira deve ser reservada para contingências como desemprego e problemas de saúde. Ela deve contemplar entre seis a doze vezes o gasto mensal. A segunda tem um propósito específico. Já a terceira deve ser resgatada para consumo, apenas após a aposentadoria.
Nessa parcela de mais longo prazo, não valeria colocar uma parte em renda variável, mesmo que ínfima, aproveitando-se da queda da bolsa? Creio que sim. Não digo que a situação europeia está decidida. A situação é complexa. Não há saída trivial. Mas isso já era sabido em março quando a bolsa atingiu 68.394 pontos. Em 18/05, fechou a 54.513 pontos. Se não se adquire ações quando a bolsa cai, qual o melhor momento então? Para que serve a máxima “compre ações na baixa, venda na alta”? Há chances de perda, mas investimentos de maior probabilidade de ganho também estão associados a maiores riscos. E mesmo que a bolsa ainda continue caindo, como essa parcela não será usada em um futuro próximo, há tempo para recuperação.


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