Ex-executivos iniciam nova carreira como consultores


Por Letícia Arcoverde | De São Paulo

Cláudio Belli/Valor / Cláudio Belli/Valor
Aos 55 anos de idade, Edson Grottoli aproveitou a saída da presidência do grupo BSH para investir na carreira de consultor. "Queria fazer algo como Edson"
Quando a Mabe comprou a operação brasileira da BSH, detentora das marcas de eletrodomésticos de linha branca Continental e Bosch, em 2009, Edson Grottoli aproveitou a saída da presidência do grupo para reavaliar a carreira. Aos 55 anos de idade, 39 deles acumulando experiência nas áreas de gestão, finanças e recursos humanos, ele decidiu recusar propostas para outros cargos executivos e investir na carreira de consultor.
Além da pouca disposição de voltar a lidar com a demanda do mundo corporativo e as jornadas diárias de mais de 14 horas, Grottoli se viu motivado pela vontade de experimentar um caminho novo e de se desvincular do "sobrenome empresa" que estampou o cartão de visita por décadas. "Queria fazer algo como Edson, não como corporação", diz.
O mercado de consultoria atrai, geralmente, profissionais das mais diversas áreas que procuram uma forma de se manterem ativos após encerrar uma carreira executiva. A diretora da divisão de outplacement da Career Center, Cláudia Monari, acha que o ramo tem tudo para se tornar uma escolha ainda mais interessante com o tempo. "Há uma tendência de as empresas buscarem especialistas que atuem em necessidades pontuais de alto valor agregado, mas sem vínculo com a organização", diz. Ainda assim, a especialista em aconselhamento para transição de carreira Mariá Giuliese, da Lens & Minarelli, ressalta que a entrada no setor precisa estar alinhada ao que o profissional pode oferecer ao mercado. "Ele precisa desejar essa carreira e não entrar nela por falta de opção", ressalta.
Após deixar a presidência da BHS, Grottoli passou alguns meses conversando com outros profissionais, pesquisando o público e o serviço que ofereceria. Definiu, assim, o modelo de seu negócio e começou a fazer alguns trabalhos de consultoria usando o networking cultivado ao longo da carreira - maneira mais comum de dar início à atuação na área. Hoje, é dono da Eksper, especializada na colocação de profissionais temporários para atuar na liderança de projetos, onde trabalha junto com 20 executivos parceiros.
Por ter passado por diversas áreas, o consultor diz que a experiência como executivo contribuiu para que adquirisse uma visão macro do negócio e conhecesse vários aspectos do mundo corporativo. Ainda assim, ele conta que a transição foi complicada no início, pois a mudança envolve lidar com uma nova dinâmica e uma vida menos estável. Agora, vender o próprio nome é tão importante quanto o serviço. "Embora tenha sofrido com a ansiedade no início, atualmente acho que teria dificuldade para me acostumar novamente com a rotina de executivo", diz.
O Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização (IBCO) possui hoje 130 integrantes entre pessoas físicas e empresas de consultoria. O presidente Cristian Welsh Miguens, porém, explica que é difícil estimar o número de consultores atuando no mercado em todo o Brasil. Em seu cadastro, ele possui mais de cinco mil nomes.
Uma pesquisa recente da organização, com cerca de 150 participantes, indica que o mercado está aquecido. Metade dos entrevistados sentiram um aumento no volume de negócios entre 2011 e o ano anterior, e um terço diz que a demanda ficou estável.
Para 85% dos participantes, a concorrência com consultores não qualificados aumentou. "Isso atrapalha, pois são pessoas que não conhecem o mercado e não negociam bem com o cliente", diz Miguens. O IBCO existe no Brasil há 40 anos e é associado ao International Council of Management Consulting Institutes (ICMCI), órgão internacional que reúne organizações de consultoria de todo o mundo.
Outro exemplo de executivo que se tornou consultor é Ademir Calenzani. Ele acumulou 34 anos de experiência nas áreas de pesquisa e desenvolvimento de produtos na indústria do papel em empresas como Schweitzer-Mauduit e Suzano.
Na última, foi gerente-executivo até 2010, quando se aposentou durante uma reestruturação da companhia. No mesmo ano, a própria Suzano o chamou para prestar serviço de consultoria e, em seguida, ele recebeu outro convite da Oswaldo Cruz Química. "Sabia que o espaço existia, mas não tinha esse plano. Foi uma coisa que aconteceu naturalmente", explica.
Além de continuar proporcionando ganhos financeiros, o trabalho como consultor permite que Calenzani se mantenha ativo no mercado. "Mesmo aposentado, sentia-me em pleno vigor e tinha um conhecimento que o mercado demandava", explica.
Embora já esteja plenamente adaptado e encare a nova carreira com otimismo, Calenzani admite que a transição foi complexa e houve momentos em que ele considerou se dedicar apenas à marcenaria, seu hobby.
Um dos principais desafios para ele ainda é equilibrar o trabalho de consultoria técnica com a experiência organizacional adquirida como executivo. "É difícil se posicionar apenas como técnico, quando você vê que a técnica é só metade do problema. É preciso se acostumar a ser um conselheiro e saber que você não dita mais o ritmo das coisas", ensina.
Uma das formas de desenvolver melhor os novos aspectos do trabalho de consultoria foi participar de um curso no IBCO.
Com 40 horas de duração, o programa já formou 300 participantes em São Paulo e este ano passou a ser oferecido em outras capitais do país. "Um profissional pode ser um excelente especialista, mas um péssimo consultor, e só descobre isso na prática. A maioria demora a perceber que precisa adquirir competências específicas para a profissão", explica Miguens. Segundo o presidente do IBCO, o curso tem o objetivo de desenvolver habilidades como relacionamento pessoal, gestão de projetos de consultoria, capacidade de se vender e comunicação.
Hoje autodenominado consultor marítimo, o ex-oficial da Marinha Francisco Leal não só fez o curso como o indicou para os dois filhos. Embora não atuem como consultores - uma é enfermeira e o outro está se formando em sistemas da informação - Leal considera as habilidades desenvolvidas, em especial a maneira de lidar com o mercado, essenciais para qualquer profissional. "Melhorei minha atitude com os clientes e sei me colocar com mais firmeza", garante.
Após mais de 40 anos no efetivo da Marinha, Leal também diz ter virado consultor por acaso. Durante os últimos 13 anos em que passou na instituição, ele trabalhou em capitanias dos portos, onde lidava com empresas com projetos de obras sob, sobre e às margens de águas jurisprudenciais brasileiras - como construção de píeres, cais e lançamentos de dutos.
Quando foi para a reserva em 2008, as empresas continuaram a ligar para Leal em busca do conhecimento específico de normas e regulação. "Percebi que esse poderia ser um bom caminho". Apesar da surpresa inicial dos clientes, quando ele começou a cobrar pelas mesmas informações que dava como oficial da Marinha, Leal diz que "ainda não teve que procurar trabalho".
O mercado se tornou bastante aquecido após a descoberta do pré-sal em 2005, causando uma corrida para as empresas executarem seus projetos de acordo com as normas vigentes ou regularizarem obras já começadas. Hoje, ele planeja abrir uma empresa de consultoria marítima.

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