Entrevista com o presidente da Serasa Experian



Ricardo Loureiro, presidente da Serasa Experian

"Nove milhões de pessoas entraram no mercado de crédito"

A Serasa Experian é uma companhia temida. Nenhum consumidor ou empresa gosta de receber suas notificações, que informam sobre problemas com relação a pagamentos e a possibilidade de constar na lista de maus pagadores, o chamado cadastro negativo.

Por Cláudio GRADILONE

O desafio para o engenheiro Ricardo Loureiro, presidente da companhia, ao mesmo tempo que tenta polir sua imagem, é diversificar as atividades da Serasa, sem ameaçar a força de sua marca. Escrutinador privilegiado da saúde da economia, com uma capacidade pouco comum de acompanhar seus sinais vitais, Loureiro diz acreditar na sustentabilidade do crescimento do crédito sem riscos de uma explosão na inadimplência e fala dos planos da Serasa. Ele recebeu DINHEIRO na envidraçada sede da empresa, na zona sul de São Paulo.

DINHEIRO – O primeiro trimestre de 2012 acabou. Qual a expectativa para o ano, em termos de crédito?
RICARDO LOUREIRO – As perspectivas são boas. Nós esperamos um crescimento dos empréstimos um pouco inferior a 20% neste ano, especialmente porque o cenário externo está menos conturbado. Há uma diferença muito significativa em relação a 2011. No ano passado, o comportamento do crédito apresentou uma surpresa agradável. Esperávamos um crescimento de 15% nos empréstimos, principalmente devido ao impacto negativo da crise econômica internacional. Mesmo assim, acabamos obtendo um desempenho melhor do que isso. Houve um aumento de 19% nos financiamentos, graças principalmente às medidas do governo para conter a inflação e estimular a economia. O comportamento de 2012 deve ser parecido. Esse crescimento virá principalmente dos empréstimos imobiliários. Nossa estimativa para este ano é de uma expansão de 45% a 55% nessas carteiras. 
 
DINHEIRO – Esse movimento é sustentável? Não há risco de bolhas?
LOUREIRO – Não. O crédito vem crescendo de maneira consistente e saudável. As pessoas estão tomando empréstimos com bons motivos: por estarem empregadas, por terem migrado de uma atividade informal para um emprego formal ou então por terem mais renda devido ao crescimento dos salários. Também é possível perceber que o número de consumidores de crédito aumentou bastante. Nos 12 meses encerrados em dezembro do ano passado, cerca de nove milhões de pessoas tomaram um empréstimo pela primeira vez. Uma parte deles é de gente com CPFs recentes, outra é de pessoas que estavam registradas como contribuintes há tempos, mas que nunca haviam contratado um financiamento antes. Um avanço dessa magnitude é inédito na história recente do País.
 
DINHEIRO – Quem são esses novos tomadores de empréstimo?
LOUREIRO – Pelas novas pesquisas, boa parte desses novos clientes é formada pelo que chamamos, internamente, de “jovens de periferia”. São consumidores da chamada Geração Y, com até 25 anos de idade, que estão ingressando no mercado de trabalho. O que eles querem é, basicamente, mobilidade e conectividade. Ou seja, são os consumidores que estão comprando seu primeiro automóvel, sua primeira motocicleta, seu primeiro tablet ou então estão migrando de um telefone celular para um smartphone. Outra fatia importante dos recém-chegados ao mercado é formada por pessoas um pouco mais velhas, de 25 a 35 anos, que estão aproveitando as boas condições de economia, o mercado de trabalho aquecido e a alta dos salários para consumir de maneira mais estruturada.
 
DINHEIRO – Em que regiões e setores esses novos empréstimos estão sendo concedidos?
LOUREIRO – Principalmente em pequenas redes de varejo fora dos grandes centros, aquelas cadeias de lojas com 30 ou 40 unidades com atuação local. Os pontos mais aquecidos do mercado hoje são as cidades médias das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, e os consumidores são clientes dessas redes de pequeno porte. O crédito, hoje, não está mais concentrado nos grandes centros, algo que também representa uma mudança considerável em relação ao passado recente.
 
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Compradores de eletrodomésticos em São Paulo: mais financiamentos.
 
DINHEIRO – O crescimento do crédito vem gerando uma grande discussão sobre a inadimplência. Ela representa um risco para as empresas e para os bancos?
LOUREIRO – Não. A inadimplência deve crescer um pouco em 2012, mas nada que seja preocupante. O crescimento desse indicador nos últimos meses foi, em grande parte, provocado por uma maldade da estatística. Os índices de inadimplência bateram recordes de baixa em 2010, representando 4,5% dos empréstimos totais. Eles voltaram a patamares mais próximos da média histórica em 2011, quando a inadimplência subiu para 5,5%. Desse percentual, 3,9% representam créditos em atraso concedidos às empresas e 7,5% estão nos financiamentos para as pessoas físicas. Mesmo com o crescimento consistente do crédito, a inadimplência dificilmente será um problema.
 
DINHEIRO – Por quê?
LOUREIRO – Por vários fatores. Em primeiro lugar, a maneira de as instituições financeiras concederem crédito está muito mais desenvolvida. Depois de quase duas décadas de estabilidade, o conhecimento sobre como emprestar está muito mais focado. Os bancos estão usando mais modelos, aprofundando o conhecimento do cliente, e tudo isso reduz os riscos. Os consumidores também aprenderam a usar o crédito com mais critério, até porque eles têm sido alvo de diversas campanhas de esclarecimento nesse sentido. Outro fator importante é a vinda do cadastro positivo, que indica quais são os bons clientes, que costumam pagar seus empréstimos em dia. Ao selecionar melhor quem recebe o crédito, as perdas são menores.
 
DINHEIRO – A questão dos juros cobrados no crédito está, de novo, no centro do debate político. O cadastro positivo foi saudado como uma ferramenta que permitiria mais concorrência entre os bancos e faria os juros baixar mas isso não ocorreu. O cadastro não funciona?
LOUREIRO – Funciona, sim, mas esse impacto não é imediato. Costumo comparar o efeito da vinda do cadastro positivo com a construção de uma estrada nova ligando duas cidades. A estrada nova é mais reta e mais segura, mas demora algum tempo para que os usuários aprendam a usar esse caminho e haja uma concorrência entre as rotas que provoque uma redução no pedágio. Com o cadastro é a mesma coisa. Ainda vai levar algum tempo para que a vinda do cadastro provoque de fato um aumento da concorrência e uma pressão de baixa sobre os juros. O mercado de crédito como um todo não chegou à maturidade. Ainda há uma demanda não atendida, especialmente nos financiamentos imobiliários. No entanto, esse movimento é inevitável. 
 
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Stand de vendas: reduzindo riscos do cliente.
 
DINHEIRO – Nesse cenário, como a Serasa se posiciona?
LOUREIRO – Em 2007 nós nos associamos à britânica Experian. Além de capital, essa associação trouxe tecnologia e ferramentas analíticas de que não dispúnhamos. Hoje, muito mais do que uma empresa de cadastro, nós estamos produzindo análises e inteligência de mercado. Por exemplo, desenvolvemos, em parceria com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e com a Universidade de São Paulo, um mapeamento de perfis do consumidor brasileiro. Nossa conclusão é de que há 39 perfis diferentes, e cada um deles tem suas necessidades de consumo e seu comportamento em relação ao crédito.
 
DINHEIRO – Quais são esses perfis e como eles se diferenciam?
LOUREIRO – Cada um dos perfis tem suas características de renda e de consumo. Um deles é o dos jovens de periferia, de que já falamos. Eles são consumidores que estão ingressando no mercado e que são ávidos por novidades. Outro perfil é o que chamamos de “envelhecendo no campo”, formado pela parcela crescente da população que se aposenta e passa a viver mais longe dos grandes centros em busca de maior qualidade de vida. São clientes que têm renda e são bons consumidores, ou seja, são um público-alvo muito promissor para a maioria das empresas. 
 
DINHEIRO – Como vocês aplicam as informações da Serasa a esses clientes?
LOUREIRO – Nós fornecemos esse conhecimento para sustentar o planejamento de ações de marketing. Isso permite prever e prevenir perdas da base de clientes. Os exemplos mais didáticos são empresas de cartão de crédito e operadoras de telefonia celular. Como temos a capacidade de levantar o perfil de utilização dos cartões, podemos prever com um razoável grau de segurança quando um cliente está prestes a trocar a empresa por uma concorrente. Assim, nesses casos, é possível descobrir quem tem de receber uma ação de marketing preventiva. Finalmente, estamos estudando oferecer nossos serviços às pessoas físicas. Por exemplo, um cliente vai adquirir um imóvel por meio de um financiamento direto com a construtora. Nesse caso, ele estará emprestando dinheiro à construtora, e tem todo o direito de saber se essa empresa é um credor confiável ou não. Ao oferecer nossos serviços para esse comprador de imóvel, nós evitamos o aparecimento de muitos problemas como os que ocorreram no passado.

PARCEIROS E COLABORADORES UTILIZAM:

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