Apostas contra Mantega impulsionam títulos globais do governo


Investidores acham que o governo brasileiro não conseguirá enfraquecer o real

 

Antonio Cruz/ABr
Mantega
Apostas contra a política monetária de Mantega estão criando uma oportunidade para o governo no mercado de dívida
Nova York - As expectativas dos investidores de que o Brasil não conseguirá manter seus esforços para enfraquecer o real estão criando uma oportunidade para o governo no mercado de dívida.
Os títulos brasileiros denominados em dólares dispararam este ano, baixando o rendimento dos papéis com vencimento em 2022 em 100 pontos-base, ou 1 ponto percentual, para a mínima histórica de 7,67 por cento. Esse comportamento se deve em parte à aposta dos investidores de que as cinco semanas de alta do dólar sobre o real, para R$ 1,8268, serão revertidas. A alta da moeda americana ampliou a diferença das taxas para a dívida doméstica em real para o nível mais alto em sete meses, abrindo caminho para o governo fazer novas captações em reais no exterior pela primeira vez desde 2010.
As apostas de que o governo não terá sucesso em seus esforços para proteger os exportadores por meio do enfraquecimento do real estão aumentando a demanda pela dívida denominada na moeda local no exterior, disse Italo Lombardi, economista para América Latina no Standard Chartered Bank. O real deve ter um ganho de 5,5 por cento, para R$ 1,73, até o fim do ano, segundo a estimativa média de 23 analistas consultados pela Bloomberg. Investidores trazem recursos para o País, que oferece a segunda maior taxa real de juros entre as nações do Grupo dos 20.
“Se sua visão é a de que o governo não tem muito o que fazer e está apenas jogando o jogo de segurar a moeda, então é mais um problema de tempo antes de se ver o fortalecimento da moeda”, disse Lombardi por telefone de Nova York. “Neste caso, é um bom momento para tomar posição nesses títulos.”
O real perdeu 6 por cento no mês passado, a maior queda entre todas as moedas acompanhadas pela Bloomberg, em meio a alta de impostos financeiros pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e ao aumento das intervenções no câmbio pelo Banco Central.
Captação próxima
O secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Paulo Valle, disse em entrevista em 13 de março que o governo pode vender bônus denominados em dólares ou reais em sua próxima colocação no exterior nas próximas semanas. O governo busca aumentar a liquidez dos títulos internacionais denominados em reais com prazo de 10 anos, disse ele. Em comunicado enviado por e-mail a perguntas da reportagem em 30 de março, o Ministério da Fazenda se recusou a fazer comentários.
Os bônus globais denominados em reais com vencimento em 2022 deram retorno em dólares de 4,1 por cento no mês passado. Comparativamente, a dívida externa da Colômbia denominada em pesos com vencimento em 2021 teve perda de 0,9 por cento.
O governo brasileiro não vende títulos em reais no exterior desde outubro de 2010, quando ofertou US$ 1,1 bilhão em notas com vencimento de 2028 a um cupom de 8,85 por cento. Em 3 de janeiro, o governo também vendeu US$ 825 milhões em títulos denominados em dólar com prazo de 2021. A última venda dos bônus internacionais em reais com vencimento em 2022 foi em 2006.
Em novembro, a Standard & Poor’s melhorou a classificação de risco do País em um nível para BBB, o segundo menor grau de investimento, seguindo decisões semelhantes pela Moody’s Investors Service e pela Fitch Ratings. Para a S&P, “políticas fiscais e monetárias cautelosas” ajudaram a amortecer o impacto da deterioração da economia global sobre o Brasil.
O Banco Central baixou a taxa básica Selic em 75 pontos- base para 9,75 por cento em 7 de março, superando a expectativa de corte de 50 pontos, de 59 entre 62 analistas sondados pela Bloomberg. O ajuste maior que o esperado visou em parte limitar o investimento estrangeiro no mercado local de renda fixa e segurar a valorização do real, disse Lombardi. A moeda avançou 8,6 por cento nos primeiros dois meses do ano, após uma queda de 11 por cento em 2011. A apreciação cambial prejudica os exportadores ao tornar seus produtos mais caros em dólares.
‘Escassez’
Para Siobhan Morden, estrategista-chefe para América Latina da Jefferies & Co. em Nova York, o governo provavelmente vai desvalorizar o real ainda mais. Ainda assim, a demanda represada pelos ativos pode superar os receios de que um real mais fraco diminua os lucros com operações de carry-trade, nas quais os investidores tomam recursos em países de juro baixo para aplicar em outros locais.
“Eles provavelmente vão encontrar suporte suficiente, dada a escassez da curva denominada em reais”, disee Siobhan em entrevista por telefone.
Ela recomenda esperar até que a taxa de câmbio chegue a pelo menos R$ 1,85 por dólar antes de comprar títulos globais em reais, a fim de “mitigar o risco cambial e obter algum conforto.”
Jim Craige, que ajuda a supervisionar cerca de US$ 30 bilhões em dívida de mercados emergentes na Stone Harbor Investment Partners em Nova York, disse que os bônus globais em reais estão “caros” por causa da demanda criada por investidores estrangeiros que querem evitar o Imposto sobre Operações Financeiras que incide em suas aplicações no mercado doméstico de renda fixa.
“Nós definitivamente preferimos os bônus em reais com lei local do que os bônus Euroclear”, disse Craige. “Nós gostaríamos mesmo é que eles livrassem o IOF e parassem de tentar manipular a moeda. Não temos muita esperança de que isso vá mudar.”

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