Empresas começam a educar o 'bolso' dos funcionários



Ruy Baron/Valor / Ruy Baron/Valor
Poliana e o marido, Fábio, aprenderam a organizar as contas com o Sabin
Quando bateu na porta do departamento de Recursos Humanos da empresa em que trabalha, Poliana Torres, de 24 anos, tinha a carteira recheada de cartões de crédito de bancos, supermercados, lojas de roupas e de eletrodomésticos. "Estava estourada e pedi um empréstimo consignado", diz a supervisora do Laboratório Sabin. A empresa de diagnósticos sugeriu que a funcionária participasse de um programa de educação financeira. Ciente de que precisava mudar os hábitos, Poliana pediu que o marido participasse. A resposta foi positiva. Nos últimos quatro meses, a família renegociou todas as dívidas, reduziu à metade a taxa de juros paga mensalmente e se prepara para iniciar em julho uma poupança, rumo ao sonho da casa própria.
A atitude de Poliana faz parte da rotina dos departamentos de RH. Já a reação do Laboratório Sabin ainda é rara nas empresas brasileiras. "Os programas são pouco comuns. A educação financeira é um assunto novo, que começa a ser discutido por algumas organizações", diz Glaucy Bocci, gerente da área de liderança e talentos da consultoria Hay Group no Brasil.
Glaucy afirma que algumas empresas começam a entender que a educação financeira pode ser uma ferramenta importante para melhorar a percepção do funcionário em relação à sua remuneração. Se a companhia paga mais do que a média de mercado aos empregados e eles continuam insatisfeitos com a remuneração, a possibilidade de que eles não saibam gastar o dinheiro deve entrar no radar.
Nas empresas em que a educação financeira já está presente, ela surge muitas vezes como uma tentativa de remediar alguns sintomas - um grande número de funcionários procura o RH para vender férias, retirar dinheiro da previdência privada e até com um pedido para ser demitido, a fim de usar a rescisão para pagar dívidas. No Sabin, esses são motivos para uma conversa. "O funcionário acaba confessando que está com dificuldades financeiras", afirma Juliana Alcântara, gerente de RH do laboratório.
O empregado é, então, convidado a participar de um programa educacional. Se topar, tudo começa com uma planilha de custos, em que ele compara ganhos e gastos mensais. Identificadas as dívidas, a empresa ensina o funcionário a negociá-las. "No cartão de crédito, por exemplo, é possível conseguir de 60% a 70% de desconto", diz Juliana.
Reduzida a dívida, o Sabin antecipa benefícios, como décimo terceiro salário e participação nos resultados. Se não for possível quitar tudo, é hora de trocar juros altos por baixos. A dívida vira pequenas parcelas, descontadas mensalmente no salário. No caso de Poliana, os juros médios passaram de 7% para 3,5% ao mês. "Hoje essa é uma preocupação a menos. Minha ansiedade diminuiu e a produtividade até aumentou", diz Poliana.
Foi um levantamento sobre a saúde dos funcionários que levou o Grupo Fleury, de medicina diagnóstica, a criar também um programa de educação financeira. Na pesquisa, 35% dos empregados indicaram as finanças pessoais como um motivo de estresse no dia a dia. O programa começou com um piloto, em que contadores atuavam em apenas uma unidade da rede. "Percebemos que o modelo presencial era interessante, mas não compatível com a expansão da empresa. Optamos por lançar mão de uma ferramenta on-line", diz Alexandre Toscano, gerente de saúde e segurança ocupacional do Grupo Fleury.
Hoje 228 funcionários da empresa participam de forma ativa do programa, com uso das planilhas orçamentárias disponíveis no site, por exemplo. "Dependendo da demanda, fazemos a abordagem presencial", diz Toscano.
Um bom programa de educação financeira não exige grandes investimentos, segundo Fabiana Bertuzzi, gerente de responsabilidade social da Drogaria São Paulo. Além do atendimento individual a quem precisa, a drogaria organiza cursos mensais, para grupos de 30 pessoas. A ideia para este ano é dobrar a frequência. Nos encontros, os empregados aprendem de forma lúdica, por meio de blocos coloridos, a organizar o orçamento. "Já atendemos funcionários de cargo de gerência que diziam: faço o balanço da loja, mas o meu balanço mesmo nunca fiz", diz Fabiana.
Rodrigo Ventre, sócio da Vitadenarium, que oferece consultoria em educação financeira a empresas há oito anos, diz que o programa deve custar de R$ 5 mil a R$ 30 mil, com variações de acordo com o projeto e o número de funcionários. "Se o treinamento evita um pedido de demissão desnecessário, está pago o investimento. Se gera mais motivação do funcionário, o retorno é muito maior", diz Ventre. A demanda pelo serviço, segundo ele, dobrou nos últimos três anos.
Para ser eficaz, Ventre considera que um programa de educação financeira deve ter três elementos - uma ferramenta simples para organizar as finanças, como uma planilha para anotações diárias, uma abordagem comportamental da relação pessoal com o dinheiro e, por fim, uma projeção de sonhos e prioridades, como uma viagem ou a casa própria.
Ventre recomenda que o programa seja oferecido a todos os funcionários da empresa, dos salários mais baixos aos mais altos. Foi o que fez a Pinacoteca do Estado de São Paulo em um programa de educação financeira iniciado no ano passado. "Quanto maior a remuneração, maior a capacidade de se endividar", diz Marcia Regina Guiote, gestora de RH do museu. Ela decidiu procurar ajuda diante do grande número de pedidos de empréstimo que chegava ao departamento e dos prejuízos à rotina da empresa. "O endividado fica mais distraído e com frequência têm que resolver questões fora no horário de trabalho", diz.
Ainda que a empresa resolva atender à demanda por empréstimos, Reinaldo Domingos, presidente do Instituto DSOP de Educação Financeira, recomenda que ela venha acompanhada de um projeto educativo. "Nunca se deve entrar com crédito consignado em uma empresa sem uma palestra de preparação para o seu uso", diz Domingos, para quem o consignado deve figurar aos funcionários como uma estratégia para sair das dívidas, nunca como um caminho para entrar nelas.
"Tínhamos um hábito muito forte de emprestar e começamos a perceber que isso contribuía para fomentar o endividamento", diz Luiza Nizoli, presidente da Apdata, especialista em recursos humanos. Ela considera que os funcionários com dívidas têm dificuldade de trabalhar em grupo e são menos produtivos. Foi o que levou a empresa a preparar um programa de educação financeira. Em maio a Apdata passa a integrar o seleto grupo de companhias que não só pagam o salário como ensinam a gastá-lo.

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