Eles estão de volta


A queda do juro e o rali da bolsa neste início de ano impulsionaram os ganhos dos fundos multimercados. Levantamento realizado por Marcelo d'Agosto, autor do blog "O Consultor Financeiro" no portal Valor, com base em dados da Economática, mostra que dois terços dos multimercados superam o CDI - juro interbancário usado como referência - em 2012 até o dia 19. Foram considerados 284 fundos com patrimônio superior a R$ 10 milhões, disponíveis a todos os investidores e com mais de 20 cotistas.

Os multimercados vivem momentos desafiadores desde a crise de 2008, que interrompeu um ciclo de cinco anos de ganhos robustos. Naquele ano, o retorno médio da categoria foi de 10,36%, ante 12,38% do CDI. O ano seguinte foi de recuperação, mas em 2010 novamente a performance ficou abaixo do CDI: 9,46% ante 9,74% do referencial.
  
No ano passado, os multimercados tiveram ganho médio de 10,33%, de novo abaixo do CDI (10,59%), graças a um período marcado por choques externos e mudanças na política monetária do país, com a adoção de medidas macroprudenciais complementares à alta dos juros para conter a inflação. Em agosto, em especial, o mundo desenvolvido foi colocado em xeque com o rebaixamento da nota dos Estados Unidos e o alto endividamento de países periféricos europeus. Foi também nesse mês que o Banco Central brasileiro surpreendeu invertendo o rumo da taxa Selic.
Mas se por um lado o mundo ficou mais complexo, por outro, surgiram oportunidades. Segundo o levantamento, considerando um período maior, do início de 2009 para cá, dois terços dos multimercados que tinham histórico para o período (um total de 184 fundos) batem o CDI. A reação mais recente ocorreu no fim do ano passado.
Em 2011, o grande movimento foi o de fechamento das taxas de juros, que beneficiou aplicações prefixadas e em títulos de inflação, lembra João Scandiuzzi, estrategista-chefe da gestora de recursos do BTG Pactual. Tendência essa, diz, que se repetiu com mais força neste ano, com a sinalização do BC em janeiro de que derrubaria a Selic para um dígito, conformando-se com uma inflação mais próxima do teto da meta.
Foi principalmente a expectativa de queda dos juros que vitaminou a rentabilidade dos multimercados da Mauá Investimentos neste começo de ano. "Vimos que a atividade no Brasil estava muito fraca", diz Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora, que apostou em um ciclo forte de corte da taxa de juros. A SPX Capital seguiu o mesmo caminho, com investimentos prefixados. "Consideramos que os juros iam cair mais do que o esperado pelo mercado", diz Bruno Pandolfi, sócio da SPX.
No multimercado Claritas Hedge, a Claritas Investimentos tirou proveito de posições em títulos indexados à inflação. "Acreditamos que o governo está disposto a levar o nível dos juros brasileiros a patamares mais baixos, correndo riscos inflacionários", destacou a gestora em carta mensal. Na bolsa brasileira, as apostas foram concentradas em papéis que se beneficiam do atual ciclo de queda de juros.
Márcio Correia, gestor de ações da JGP, ressalta que, como boa parte dos multimercados no país tem um viés de ficar "comprado", apostando em Brasil, os fundos começaram bem o ano. Além disso, lembra, com juro menor, o retorno dos multimercados relativamente ao CDI aumenta, sem necessariamente ter de elevar o ganho absoluto. Na lista dos mais rentáveis, há um fundo da gestora, o JGP Equity. A carteira, porém, foca o mercado de ações, podendo operar "vendida" (apostando na baixa), mas sempre com viés de compra.
O tamanho das apostas varia conforme o ciclo da bolsa e a estratégia de seleção de ativos. Desde o ano passado, segundo Correia, o JGP Equity está com uma alocação relativamente baixa em bolsa, mas obteve ganho com papéis como Hering, Klabin, que continuam na carteira. "Neste ano, não pegamos todo o rali, porque consideramos que o mercado está caro e os riscos ainda são altos", explica.
Nos dois fundos da Sparta que aparecem entre os mais rentáveis do ano, o retorno também é explicado por aplicações em bolsa: cerca de dois terços do patrimônio. Há ainda uma fatia em commodities agrícolas, que não tiveram desempenho expressivo. "Estamos muito otimistas com o cenário brasileiro e a bolsa batendo novos recordes", diz Ulisses Nehmi, diretor da gestora. A forte exposição à bolsa, porém, faz os mesmos fundos da Sparta apresentarem desempenho bem abaixo do CDI nos últimos três anos.
O multimercado do HSBC que mais se destacou neste começo de ano é outro que se beneficiou do desempenho das ações, segundo Rodrigo Borges, gestor da HSBC Global Asset Management. Trata-se de um de um fundo de cotas que tem hoje 20% do patrimônio aplicado em quatro carteiras de ações com diferentes focos: small caps, setoriais, altos dividendos e livre, esta última mais agressiva.
Sobre o futuro da bolsa, Borges é cauteloso, principalmente devido às perspectivas ruins para o crescimento mundial. "Por outro lado, se você olha o que os governos em todo o mundo estão fazendo, com juros muito baixos e liquidez alta, é difícil negar um ambiente que seja favorável à bolsa", diz.
O Itaú aparece na lista dos mais rentáveis com dois fundos de estratégias específicas, um voltado para ações small caps no Brasil e nos Estados Unidos e outro que segue a variação do ouro na Bolsa de Londres, ativo que se sobressai em ambiente de crise econômica. Já o mutimercado Retorno Total, conta Paulo Corchaki, diretor de gestão de recursos da Itaú Asset Management, ganhou com apostas em juros, câmbio e bolsa. Com perfil agressivo, o fundo monta posições estruturais de mais longo prazo.

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