Com Selic cada vez menor, taxa come ganhos de fundos




Mais de 1 milhão e 800 mil investidores vão ter de se mexer se quiserem manter competitivas aplicações que hoje estão em fundos de curto prazo e referenciados DI. Esse é o universo de cotistas que têm dinheiro em carteiras que cobram taxa de administração superior a 1,5% ao ano - e que, potencialmente, perderão da poupança quando a Selic cair para 9% ao ano, piso sinalizado na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom) -, aponta levantamento do economista Marcelo d'Agosto, do blog O Consultor Financeiro, no portal Valor, com base em dados da Economática.
Os fundos de curto prazo e DI seguem a variação da taxa básica e, portanto, tendem a render cada vez menos no atual ciclo de queda de juro. Simulação feita peloValor Data aponta que, com juro de 9% ao ano, carteiras que cobram taxa de 2% ao ano ou mais perdem da poupança qualquer que seja o prazo de aplicação. Fundos com taxa de 1,5% ao ano ficam menos competitivos que a caderneta para investimentos de até um ano. Para o estudo, foram considerados retorno de 9% ao ano para os fundos e de 6,17% anuais para a caderneta, como se a TR fosse zero.
  
Mas é razoável esperar uma reação desses investidores ou mesmos dos gestores de fundos, em busca de facilitar o acesso de pequenos aplicadores a carteiras mais baratas? Segundo d'Agosto, do patrimônio líquido alocado em fundos de curto prazo e DI (de R$ 233 bilhões), a maior parte, R$ 121 bilhões, está aplicada em carteiras com taxa menor que 0,75% ao ano. Porém, quando se olha onde está o número maior de investidores, o quadro muda. Os 1,8 milhão de cotistas que estão em fundos de curto prazo e DI com taxa superior a 1,5% representam cerca de 74% do total de investidores, mas apenas 12% do volume (R$ 44 bilhões).
"Esse é o cliente de varejo que peca pela comodidade", diz Eduardo Glitz, diretor de varejo da XP Investimentos. Carlos Massaru Takahashi, presidente da BB DTVM, maior gestora de fundos do país, com R$ 438,9 bilhões, lembra que a Selic já chegou a 8,75% ao ano e não houve migração de recursos de fundos para a poupança. "São públicos muito distintos", argumenta.
Segundo ele, o investidor de fundos em geral tem mais de uma carteira e usa a aplicação de curto prazo ou o DI para os recursos que pretende usar em menos de 30 dias. O fundo, diz, é o único que rende alguma coisa nesse prazo, já que o ganho da caderneta é creditado a cada 30 dias, no aniversário.
Paulo Bittencourt, diretor técnico da Apogeo Investimentos, diz que o estoque de cotistas nesses fundos já foi maior e hoje é formado por investidores mais antigos, outros menos informados e ainda por cotistas que até colocaram dinheiro em carteiras mais baratas, mas sem se desfazer da aplicação anterior. "É comum encontrar clientes com até quatro fundos DI com diferentes taxas", diz, apesar de não fazer sentido, já que a gestão é muito parecida nesse segmento.
Para o professor William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV, o investidor não é racional e isso ajuda a entender por que não há a migração que todo mundo espera quando as taxas caem. "Ele tem grande parcela dos investimentos com o objetivo de se proteger contra a pobreza e isso explica aplicações em imóveis e outras que não rendem tanto", diz.
A inércia do aplicador está ligada ainda a uma questão cultural, acredita Sandra Blanco, consultora da Órama, butique virtual de investimentos. "As pessoas não têm costume de fazer pesquisa, ir atrás das melhores alternativas de investimento." E os bancos, diz Glitz, da XP, aproveitam-se da falta de informação e comodidade do cliente.
Há fundos com taxas superiores a 4% que estão entre os mais populares. Um exemplo é o DI Bradesco Hiperfundo. Com taxa máxima de 4,5%, a carteira tem cerca de 360 mil cotistas e patrimônio superior a R$ 5 bilhões. O grande apelo do fundo é o sorteio de prêmios.
Há ainda carteiras de aplicação automática dos recursos que ficam parados em conta corrente e, portanto, tendem a ter bases grandes de cotistas apesar da proposta de oferecer algum rendimento. Esse é o caso do DI Santander Classic, que cobra taxa máxima de 5% ao ano, reúne cerca de 159 mil cotistas e R$ 3 bilhões em recursos. Procurados, Bradesco e Santander não atenderam o pedido de entrevista, assim como o Itaú Unibanco.
O ambiente de juro mais baixo é desafiador para o setor de fundos, ao colocar o foco nas taxas de administração, reconhece Takahashi, da BB DTVM. "A grande discussão gira em torno das taxas, mas elas vêm sendo comprimidas ao longo dos últimos anos", ressalta. A queda, contudo, acontece muito mais via redução do tíquete de entrada de fundos mais baratos do que efetivamente pelo corte das taxas. "A indústria de fundos faz isso com muita cautela, já que para diminuir a taxa não é preciso fazer assembleia, mas para subir sim", argumenta.
Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que a taxa de administração média de fundos DI para o investidor do varejo vem diminuindo: passou de 1,61% em 2008 para 1,29% no início deste ano. Nas carteiras com aplicação mínima menor, porém, as taxas ainda superam os 2%. Para investimentos de até R$ 1 mil, a taxa média ponderada pelo patrimônio chega a 3,45% ao ano. Na faixa de aplicação de R$ 1 mil a R$ 10 mil, a taxa voltou a subir no ano passado, para 2,11%, ante 1,63% de 2010.
Takahashi diz que há espaço para cortar taxa, especialmente no segmento de fundos voltados para o varejo e passivos, que seguem um indicador e, portanto, demandam menos capacidade de gestão. Mas pondera que a estrutura dos grandes bancos, que representam 80% do setor de fundos, é mais cara, por conta de serviços que envolvem corretagem, custódia, auditoria, regulação, autorregulação, remessa de extratos para clientes, realização de assembleias, "suitability", entre outros. "São custos que impedem uma redução mais drástica das taxas."
Ainda segundo o executivo, a escala dos bancos, que é fundamental para esse tipo de fundo, tem o lado bom sob a perspectiva da gestão, uma vez que permite reduzir taxas. Mas também o cruel, já que os custos são proporcionalmente maiores, destaca. Apesar da estrutura gigante dos bancos, não há por que ter fundos que cobram mais que 2% ao ano de taxa, diz Sandra, da Órama. "Nos Estados Unidos, os fundos 'money market' (de altíssima liquidez) são os mais baratos", ressalta.
Takahashi não vê com preocupação a concorrência com a poupança. "Há muito espaço para crescer na base de fundos", diz. "Antes de jogar o olhar para a poupança, tem outra discussão mais relevante, que envolve mudanças na própria indústria de fundos a fim de preservar sua competitividade", acrescenta, referindo-se, por exemplo, à retirada do come-cotas e à adoção de um tratamento tributário em pé de igualdade com o ativo final, como ações.
Heitor Lima, líder do escritório brasileiro da gestora de recursos Franklin Templeton, vislumbra mudanças com a nova realidade. "Em um ambiente de juros consistentemente menores, deverá haver um realinhamento dos custos em geral, para que os investidores possam vir a ter retornos compatíveis com esse novo cenário."
A poupança, inclusive, deve sofrer transformações para que o juro siga seu movimento de convergência para padrões internacionais, acredita Bittencourt, da Apogeo. Além de variar conforme a Selic, outra possibilidade, na visão dele, seria alongar o período de aniversário da caderneta ou ainda oferecer um diferencial de retorno para prazos mais longos. (Colaborou Catherine Vieira)

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